Coronavírus também pode ser agressivo entre jovens, alertam especialistas


Tudo começou com sintomas brandos: tosse, coriza e dor no corpo. Saudável, sem histórico de doenças crônicas ou qualquer problema respiratório, o estudante de medicina André Castro, 25, pensava que era um resfriado leve, “nada diferente de muitos outros” que já teve. Mas os dias se passaram e as dores só aumentavam. “Não tinha antitérmico que fizesse minha febre passar”, conta. Depois de procurar um hospital particular em Belo Horizonte, o jovem foi isolado junto com outros pacientes com suspeita de coronavírus.

Liberado após uma tomografia que não apontou alterações, André seguia todas as recomendações médicas, até o quadro de saúde se agravar. “As dores se intensificaram, eram horríveis. Não conseguia ficar sentado. Veio a falta de ar, respirava e parecia que não entrava nada nos pulmões, foi desesperador”, relata. De volta ao hospital, o estudante precisou de um suprimento de oxigênio para conseguir respirar.

“Foram as piores dores que já tive”, reafirma. Com a frequência respiratória acima do normal, André ficou em observação e só não teve problemas maiores devido à disponibilidade de equipamentos médicos para tratar o caso – com a falta de leitos até na rede particular em um cenário sem isolamento social e muitos infectados com sintomas graves, especialistas temem que cenas como a da Itália se repitam no país.

O relato do estudante, que teve a confirmação para o coronavírus, acende um alerta para muitos jovens: mesmo saudáveis, há risco de sintomas agressivos e até morte, assim como ocorre com idosos e pessoas com doenças crônicas, conforme especialistas ouvidos pelo jornal O Tempo. E os exemplos são inúmeros. É o caso de um homem de 26 anos que corria maratonas e não resistiu ao coronavírus em São Paulo. Na Bélgica, uma adolescente de 12 anos entrou para as estatísticas como a mais jovem vítima da pandemia na Europa.

Em Minas Gerais, dados da Secretaria de Estado de Saúde mostram que mais de 80% dos contaminados possuem entre 20 e 59 anos – dado alarmante, já que com a falta de exames para detectar a doença, a rede pública tem priorizado testes só para pacientes internados. No Rio de Janeiro, o secretário de Estado de Saúde, Edmar Santos, demonstrou preocupação com a agressividade do vírus em pessoas de 30 a 39 anos, a segunda faixa etária com maior número de internações.

No Brasil, segundo o último balanço divulgado pelo Ministério da Saúde, 28 pessoas morrem sem apresentar nenhuma doença pré-existente que agravasse o quadro, sendo uma pessoa com idade entre 20 e 29 anos e outras quatro na faixa etária entre 30 e 59 anos.

Manifestação rápida

O professor de Doenças Infecciosas e Parasitárias da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Celso Ramos, revela que as manifestações da doença podem surpreender pela velocidade da evolução. “Pode começar com um pequeno incômodo na garganta, dormir assim e acordar com febre. À noite, precisar de internação pela dificuldade de respirar e no dia seguinte morre no hospital”, exemplifica.

Segundo o especialista, há evidências de que a falta de olfato pode ser um indicativo de sintomas graves nos pacientes, inclusive pessoas fora do grupo de risco. “As crianças e os jovens se infectam, não estão imunes. Há um percentual menor de manifestações graves, mas não quer dizer que não existem”, reforça.

Celso Ramos lembra ainda que crianças e adultos com diabetes, imunodeficiência, câncer, que fizerem uso contínuo de corticoide e até quem tem o sangue do tipo A estão mais propensos a ter sintomas agressivos. “Agora, se eu não me incomodo com quem morre e o número, a coisa é mais difícil. Para um militar, que foi treinado e vê que em uma guerra a perda de uma porcentagem de pessoas faz parte, para mim, como médico, é muito difícil”, argumenta.

Foco de transmissão

Já a infectologista da Unicamp e consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia, Raquel Stucchi, cita outro fator que aponta a importância do isolamento social também dos mais jovens: são um grande foco de transmissão do coronavírus para o grupo de risco. “Eles estão para o coronavírus assim como o Aedes [mosquito transmissor] para a dengue. Vão sair de casa, achar que está tudo bem, e quando chega abraça pai, mãe, avó. É uma doença nova, que no hemisfério Sul é mais nova ainda, e não sabemos se vai ser igual aqui”, questiona.

O argumento é compartilhado pelo professor do Departamento de Clínica Médica da UFMG, Mateus Westin. “Cerca de 80% das infecções na China foram transmitidas por pessoas que tinham poucos ou nenhum sintoma, na sua maioria jovens. Essa é a grande preocupação e é por isso que não dá, nesse momento da transmissão comunitária, pensar em um isolamento seletivo”, defende.

Importância da prevenção

Após sofrer na pele as dificuldades impostas pelo coronavírus, o jovem André Castro vê ainda mais importância no isolamento social para evitar a rápida propagação do vírus. “Temos que ficar em casa e ver o resto do mundo como exemplo. O jovem saudável pode ficar gravemente doente, tenho amigos internados em Belo Horizonte e São Paulo, de 20 e poucos anos”, diz.

Passado o susto, o estudante melhora mais a cada dia. “As dores passaram quase todas, uma vez ou outra sinto algo nas costas e costelas. A respiração demorou mais a melhorar, ainda sinto um pouco de falta de ar, mas praticamente se normalizou”, finaliza.

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