Com sucateamento, Regap deixa de entregar 41 mil barris por dia de combustíveis

Nos últimos sete anos, houve uma queda acentuada na produção de combustíveis da Refinaria Gabriel Passos (Regap), administrada pela Petrobras em Betim, na Grande BH. Em 2013, o fator de utilização (FUT) da estrutura era de 94,1%, considerando uma capacidade máxima de produção de 166.051 barris por dia de combustíveis. Mas o índice caiu para 75% em 2020, ou seja, deixou de entregar ao varejo 41.377 barris por dia naquele ano. 

Os dados são do Anuário Estatístico Brasileiro do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis, publicado pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). O último levantamento disponível é o de 2021, divulgado com dados do ano anterior, por isso o comparativo da reportagem só vai até 2020. 

Mas, qual o reflexo dessa queda para o bolso do brasileiro? Com menor utilização das refinarias, o Brasil é obrigado a importar mais combustível, que precisa ser comprado em dólar, hoje cotado acima de R$ 5. 

Fora os custos de logística para trazer o combustível de fora. Esse produto refinado vem, principalmente, do Golfo do México, de onde os Estados Unidos extraem seu petróleo. Outros parceiros comerciais importantes do Brasil nesta conta são a Holanda, Bélgica e o Reino Unido. 

Influência da nova política de preços

Desde 2016, no governo Michel Temer (MDB), a Petrobras trabalha com a política de Preço de Paridade de Importação (PPI). Além de elevar os preços finais dos combustíveis na bomba, como explicado por O TEMPO nesta-quinta-feira, o PPI representa uma queda drástica na utilização das refinarias no Brasil.

Em 2015, a média nacional de uso das refinarias pela Petrobras era de 83,5%. No primeiro ano do PPI, a utilização já caiu para 77,1%. Desde então, o ano com pior rendimento foi 2018, quando a taxa ficou em 72,7%. Em 2020, a estatal fechou com FUT médio de 77,2%.

O doutorando em Planejamento Energético pela Universidade Federal do Rio de Janeiro Otávio Grassi afirma que o desequilíbrio observado nos fatores de utilização deriva de decisões políticas. Ele concluiu pesquisa sobre o assunto, para obter o título de mestre em Ciências e Técnicas Nucleares pela UFMG. 

“Em 2013, a empresa chegou a 94% (da capacidade), houve uma decisão política para reduzir o valor dos combustíveis e o setor de refino estava deficitário. Então foi, também, uma decisão política de Michel Temer reverter a redução do fator de utilização para aumentar o preço de venda dos combustíveis e a rentabilidade da Petrobras”, detalha Grassi.  

A queda da utilização acompanha uma série de medidas do governo para tentar privatizar a refinaria. Em 2019, para reduzir o monopólio sobre o refino de petróleo no país, a Petrobras se comprometeu com o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) a vender para a iniciativa privada oito refinarias espalhadas pelo país. Algumas vendas foram concretizadas (como Landulpho Alves, na Bahia, e Isaac Sabbá, no Amazonas), mas outras ainda não foram concluídas, entre elas a da Regap.

Queda no refino aumenta importação

Quando a análise dos dados se volta à Regap, a queda a partir da implementação da atual política de preços também chama a atenção. Em 2015, um ano antes da mudança, a refinaria de Betim teve utilização de 91,9%. Já em 2020, essa taxa despencou para 75% – uma queda percentual de 18,3%.

A não ampliação da capacidade de refino da refinaria da Petrobras em Minas Gerais também se destaca. Desde 2014, não há qualquer revamp (modernização que gera ampliação) na estrutura. Anos antes, em 2011, a Regap perdeu um investimento de cerca de R$ 600 milhões. Esse aporte viria para Betim inicialmente, mas naquele momento a Petrobras decidiu transferir o dinheiro para o complexo petroquímico de Camaçari (BA). 

Redução nos postos de trabalho

Os petroleiros de Betim esperavam uma ampliação da planta e, consequentemente, a criação de mais postos de trabalho, mas estão decepcionados com a redução gradual da capacidade. 

“Nós tínhamos projetos aqui, previstos e sendo debatidos na Regap, para expansão de mais 33% do refino. Tinha um projeto de uma nova planta de destilação (separação das misturas) e outra de coque (combustível da indústria metalúrgica e de cerâmica) também. Seriam duas plantas que gerariam muito mais empregos na região e aumentariam de 30 a 40% a nossa produção”, afirma Alexandre Finamori, coordenador do Sindicato dos Petroleiros de Minas Gerais (Sindipetro/MG). 

Hoje a Regap tem cerca de 700 funcionários próprios e entre 1.200 e 2 mil colaboradores terceirizados, segundo o sindicato. Segundo Finamori, a indústria já chegou a empregar 3.500 pessoas. Segundo a Petrobras, o quadro atualmente conta com 641 funcionários. A estatal não informou, no entanto, o número de terceirizados.

Para Otávio Grassi, ao longo dos anos os investimentos feitos ao longo dos anos em torno do refino apresentaram equívocos. “Se a gente quer aumentar a nossa capacidade de refino, o primeiro passo seria aproveitar as refinarias que já existem e estão ociosas. Esse é o primeiro passo, e não construir uma nova estrutura. É um investimento que vai trazer um resultado mais rápido”, analisa. 

Em nota, a Petrobras informou que as refinarias já operam próximo do nível máximo, com 93% do fator de utilização no início de maio. “A definição do nível de utilização é uma decisão técnica e econômica, que leva em conta a demanda dos clientes da Petrobras, as alternativas globais de suprimento e preços de petróleo e derivados”, diz. Ainda conforme a estatal, a Regap adota metodologia desenvolvida especificamente para o estabelecimento de critérios e parâmetros técnicos para dimensionamento do número de postos de trabalho de operação para as refinarias.

Ainda conforme a empresa, há uma previsão de investimento na ordem de US$ 6,1 bilhões no refino nos próximos cinco anos, incluindo projetos para ampliar a capacidade de produção, especialmente de derivados de alta qualidade, como o diesel S-10, de baixo teor de enxofre.

Raio-x da Regap

Em 2020, a Regap produziu 7,7 milhões de metros cúbicos de combustível, conforme a ANP. Sete produtos predominam nesse balanço: gasolina, gás de cozinha, óleo combustível (lubrificantes), querosene de aviação, asfalto, coque e nafta. Pesadelos do orçamento das famílias, a gasolina e o diesel representaram 67,2% da produção da refinaria naquele ano. 

Hoje, o petróleo chega à Regap por meio do pós-sal do Terminal de Campos Elíseos (Tecam) pelo duto denominado Orbel II e também pelo pré-sal. No plano nacional, a Regap liderou a produção brasileira de querosene iluminante (36,1% do total do País) e de asfalto (22%) em 2020.

A Petrobras inaugurou a Regap em 1968, durante o governo Costa e Silva. O nome da refinaria homenageou o ministro das Minas e Energia à época, Gabriel Passos.

 

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