Centenas de moradores de rua vão à Serraria em 1º dia de ação de acolhimento


Ao reconhecer amigos e colegas que também estão em situação de rua, Ivanildo de Souza Pereira, 46, tomou lugar na fila organizada sob o Viaduto Santa Tereza e que levava à Serraria Souza Pinto, na região Central de Belo Horizonte. Por lógica, imaginou que o espaço prestava serviço à população desabrigada da capital, ainda que não tivesse muita certeza do que iria encontrar — nos fins de semana, afinal, são mais comuns ações como a de distribuição de marmitas.

Mas algo ali, desde o início, pareceu a ele especial. Antes de entrar no espaço, recebeu um primeiro cuidado de higienização com a distribuição de álcool em gel. Mãos limpas, ganhou uma máscara cirúrgica. As duas medidas são consideradas fundamentais para o enfrentamento à pandemia da Covid-19, doença que levou a um esvaziamento das ruas das grandes cidades e sobre a qual Pereira ouviu falar apenas superficialmente. “Me disseram que foi criada por um cientista chinês”, relata, reproduzindo uma informação falsa que vem sendo vastamente disseminada, mas que já foi desmentida por pesquisadores de diversos países.

O caminho percorrido por Pereira e acompanhado por O TEMPO é o mesmo feito por centenas de pessoas em condição de extrema vulnerabilidade desde sábado (13), quando começou a funcionar o “Canto da Rua Emergencial”, ação idealizada pela Pastoral Nacional do Povo da Rua, um organismo da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) com sede em BH, que conta com diversos parceiros, entre associações e organizações civis, entes públicos estaduais e municipais e instituições privadas. O objetivo é ser uma alternativa às poucas políticas públicas dedicadas àqueles que vivem em situação de rua, criando uma estrutura de acolhimento psicossocial, de orientação jurídica e de saúde e emprestando dignidade à essa população. 

Para receber o projeto, que é patrocinado pelo Instituto Unibanco, a estrutura da Serraria foi reformatada em praças específicas, como a de intervenção básica em saúde, a de alimentação, a de higiene e a de assistência psicossocial. O fluxo de assistidos é orientado por voluntários, a maioria ligada a plataforma de voluntariado Transforma BH, e por integrantes da pastoral. A expectativa é que pelo menos 600 pessoas passem diariamente pelo prédio, que é tombado pelo patrimônio e que prestará serviços todos os dias da semana, de 8h às 14h.

A reportagem detalha, a seguir, os passos percorridos por Pereira na manhã deste domingo (12) e que será comum a outras milhares de pessoas que devem ser atendidas até o final de agosto no local.

Por dentro do Canto da Rua 

Depois de poucos minutos de espera, ao entrar na Serraria, Pereira passou por uma triagem e teve sua temperatura auferida por meio de um termômetro digital a laser. Caso tivesse febre e outros sintomas respiratórios, indicando suspeita de infecção para o coronavírus, ele teria sido levado a um espaço de isolamento e o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) seria acionado. Não era o caso e, então, o catador de materiais recicláveis foi orientado a passar por um lavabo para melhor higienizar as mãos e, depois, para um outro espaço em que pôde lanchar. 

Fome saciada, ele foi recebido por uma assistente social. Relatou que vive há mais de dois anos nas ruas e que, há cerca de um mês, não tem contato com seus familiares. Dependente químico, sua única fonte de renda vem do trabalho com a coleta de materiais recicláveis: ele teve seus documentos roubados, motivo pelo qual não tem acesso a nenhum tipo de assistência governamental. Logo foi orientado sobre como conseguir uma nova documentação, um passo importante para deixar de ser invisível para o Estado. 

Por fim, Pereira tomou um banho de água quente, ganhou roupas limpas cedidas por doadores e pôde usar o sanitário — atividades quase banais da vida cotidiana daqueles que possuem moradia, mas que são lidas como um privilégio para ele e para outras mais de 9.000 pessoas que vivem em condições de extrema vulnerabilidade na capital mineira, conforme dados do Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico) da Prefeitura de Belo Horizonte.

“É um trabalho sensacional”, resume Pereira, antes de deixar o lugar e voltar para as ruas. Embora pouco saiba sobre a Covid-19, ele se solidariza com as vítimas da doença —  “Tem morrido muita gente inocente” — e demonstra ter medo de ser infectado. Foi justamente o receio de como a pandemia atingiria a população que está em situação de rua que a entidade ligada à Igreja Católica veio se mobilizando desde as primeiras notícias sobre a emergência de saúde. “Quando ficamos sabendo, ficamos desesperados e convocamos o poder público para pensarmos juntos em como ajudar a população invisível da nossa sociedade”, lembra Solange Fátima Damião, coordenadora da Pastoral Nacional do Povo da Rua.

Estruturação

Com os primeiros casos da doença no Brasil e, depois, em Minas Gerais, a preocupação só fez crescer. “Foi especialmente difícil a primeira semana em que a quarentena foi adotada. Imediatamente começamos com ações emergenciais para suprir as necessidades mais básicas, de fome e sede”, expõe Claudenice Rodrigues, que também integra a coordenação da pastoral. Ao mesmo tempo, continua ela, o grupo pensava em medidas mais centralizadas e, aos poucos, foi amadurecendo a ideia agora chamada de “Canto da Rua”.

“Começamos a fazer ações, que foram mudando de perfil. Inicialmente, pedimos insumos, depois alimentação, depois doações… Mas queríamos algo mais estrutural, então veio a parceria com o Instituto Unibanco e com diversas entidades públicas e da sociedade civil e pudemos inaugurar este espaço”, detalha Solange.

Toda dinâmica foi pensada para acolher, causando o mínimo de estranhamento. Por isso, animais de estimação são bem-vindos e também recebem cuidados. Há, além de um guarda volume, um estacionamento de carrinhos para os catadores de recicláveis. Para o banho, são disponibilizados itens como toalha, shampoo, sabonete e desodorante. 

Ao longo dos próximos dias, novas ações de assistência serão implementadas no local. A Defensoria Pública e o Ministério Público, por exemplo, vão abrir tendas a partir de segunda-feira (15), criando um canal para orientação jurídica e para denúncias de violações de direitos.

“Algumas pessoas que estão nas ruas temem processos antigos, que já caducaram, como casos de pequenos furtos por exemplo. São pessoas que relutam em fazer novos documentos porque têm medo de serem perseguidas. Com o suporte, poderão compreender melhor sua situação, seus direitos”, explica Felipe Marcelino, que também é membro da pastoral. Ele diz que um departamento de beleza, com cuidados como o corte de cabelo, também pode ser agregado nos próximos dias.

 
 
 
 
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Uma publicação compartilhada por O Tempo (@otempo) em 14 de Jun, 2020 às 10:27 PDT

Mais frentes de ação

Outras ações capitaneadas pelo grupo incluem a garantia de acomodação em pensões para indivíduos em situação de rua que tenham mais de 60 anos ou que possuam alguma comorbidade — perfil considerado de risco no caso de manifestação da Covid-19. No total, foram abertas 150 vagas, das quais 62 já foram ocupadas. Quem tenta conseguir um cantinho mais seguro, em que se sinta mais preservado em relação ao novo coronavírus é Ismael Silveira, 33.

Com uma série de problemas de saúde, ele sofre com convulsões que afetam sua memória, por isso não tem certeza sobre a própria idade. Embora venha dormindo em albergues nos últimos meses, por ser vulnerável a quadros mais graves da doença, busca agora um lugar mais vazio e acredita que a Pastoral Nacional do Povo da Rua poderá ajudá-lo. 

Em outra frente, a entidade e seus parceiros começaram a distribuir um total de 2.400 kits de café da manhã nos sábados e domingo em diversos pontos da cidade em que há concentração de pessoas desabrigadas. Com a chegada do inverno, kits de agasalhos e colchões térmicos também estão sendo entregues. 

“Torcemos que, até o fim de agosto, a gente consiga mostrar como a comunidade ganha com essas ações e quebrar o estigma de violência, de forma que não seja preciso dar a má notícia para os assistidos de que tudo acabou”, pontua Felipe Marcelino.



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