Bolsonaro na ONU – Por Tilden Santiago – #temporadadetextos

Foto: Creative Commons
Tilden Santiago

Nessa estreia no Portal Nova Contagem, esse escriba-jornalista tem dois objetivos:

1) comentar a presença e palavras do presidente na ONU e 2) em cima desse fato transcendental, fazer um exercício de jornalismo-comparado dos 4 jornais que leio diariamente: Folha de São Paulo, Diário do Comércio, onde trabalhei por cerca de 20 anos, O Tempo e Super Notícia.

Em síntese, mais uma vez, o atual presidente se fez vítima de campanha de desinformação. Em 15 minutos mostrou uma capacidade incrível de mentir, algo pouco usual na tribuna da ONU. Jogou na defensiva, o tempo todo, tentando defender as políticas do seu governo, diante da Pandemia e da crise aguda da economia e das queimadas, já famosas em todo p mundo, que devastam a Amazônia e o Pantanal.

Desde o início da crise, iludiu a população brasileira, falando de tratamento igual para o vírus e o desemprego, chamando a Covid-19 de gripezinha. Ousou repetir sua visão e interpretação incorretas do quadro conjuntural, ao abrir, como presidente brasileiro, a Assembleia Geral da ONU, acusando inclusive a imprensa de disseminar pânico em toda a nação. Aos governadores e prefeitos atribuiu a responsabilidade pelos males suportados nos estados e municípios.

Bolsonaro enalteceu o auxílio emergencial, essa Esmola do Estado e classes dominantes a um povo sem comida, sem saúde, sem teto, sem segurança, sem emprego, cabisbaixo…

Ousou destacar também os empréstimos facilitados à pequena e média empresa. Basta conversar com médios, pequenos e microempresários, para saber da dificuldade da retirada desses empréstimos. O fato é que suas políticas não conseguiram impedir ou minorar as tribulações com vítimas fatais: mais de 140 mil no país até agora.

Diante de representantes das nações, chegou ao cúmulo de proclamar que as riquezas da Amazônia desperta interesses estrangeiros escusos. Ele pensa como seu vice, que estão atraindo investimentos de fora para salvar a economia.

Segundo seu discurso, as queimadas são causadas sobretudo por condições naturais  inevitáveis ou pela atuação de “índios e caboclos”. Mente descarada e solenemente ao afirmar, em conclave de tal porte, que os incêndios criminosos São “combatidos com rigor e determinação”. Incrível!? Tão incrível que o cacique Raoni já protestou com veemência.

As cerejas do bolo presidencial foram os elogios a Donald Trump, seu ídolo e os ataques infundados à Venezuela.

Vamos ao segundo ponto, o exercício do jornalismo comparado com relação à ida de Bolsonaro à New Yorque.

Super Notícia, jornal de maior tiragem no país, segundo o Instituto Verificador de Comunicação (IVC), não publicou nenhuma linha. Jornal popular visto seguidamente debaixo do braço ou se do lido pelas classes populares, em Contagem, Barreiro e na Grande BH! Não há como justificar o veículo privar seus leitores, homens e mulheres, deste fato transcendental, desta notícia bastante grave para o país, possível geradora de uma consciência crítica dos rumos do Brasil.

O Diário do Comércio dedicou menos de meia página ao assunto. Só o DC ressaltou que Bolsonaro negou as queimadas, justificando que a floresta é “úmida”, não permitindo fogo no seu interior: os incêndios acontecem no entorno da floresta, causado por índios e caboclos.

Ousou afirmar que sua política é de tolerância zero contra as atividades ilegais da Amazônia. Aqui Bolsonaro abre espaço para a perspicácia mordaz de chargistas e humoristas! O espaço foi pequeno pela importância do fato e pela gravidade das consequências para a população brasileira. O fato de ser o único jornal mineiro voltado para a economia, alimentando o conhecimento de empresários, executivos, comerciários, advogados, contadores, economistas, acadêmicos, banqueiros e financistas. Envez de justificar o espaço insuficiente, ao contrário, as elites têm pleno direito de serem plenamente informadas. E o DC nasceu e se desenvolveu com seu fundador, o visionário José Costa, jornalista vocacionado para o desenvolvimento econômico e integral de Minas.

O Tempo, em pequena chamada de primeira página deu ênfase à Amazônia e Pantanal e fez um resumo do resumo dos acontecimentos. O conceituado jornal tabloide dedicou uma página ao maior encontro diplomático do planeta. Ressaltou os mesmos aspectos do DC, mas destacou o repúdio de ambientalistas à fala do presidente em “negrito”.

Reproduziu também a repercussão negativa de veículos de peso internacional: Clarin, The Guardian, El País, Le Monde. O mais incisivo na crítica foi El País: “Bolsonaro se exime de erros na gestão da Pandemia e choca ao culpar os índios por incêndios”. O Tempo concluiu sua reportagem destacando o empenho da ONU em querer evitar nova Guerra Fria – quando se referiu a Trump e China. A ONU anatematiza qualquer guerra, fria ou quente.

A Folha de São Paulo deu um amplo espaço ao evento e seu significado, convicta da importância de mais uma Assembleia Geral da ONU. Historicamente sempre aberta pelo presidente do Brasil, desde Oswaldo Aranha, após a II Grande Guerra Mundial, quando se tentou restaurar a paz entre as nações e começou a sentir o impacto da Guerra Fria, que nascia. Outra justificativa para elaboração de tantas matérias, foi a postura altamente negativa, desumana é inacreditável do presidente Bolsonaro.

O grande matutino paulista abriu suas informações, interpretações e opiniões, logo a partir da manchete de primeira página, em duas linhas de letras garrafais: “Bolsonaro se defende na ONU sobre Pandemia e queimadas.

Um resumo dos fatos compôs a primeira matéria com fotos de cima a baixo de Bolsonaro, Trump, Xi Jinping e Mácron – Brasil, EUA, China e França. Intencionalmente, a meu ver, ao lado das quatro fotos, no alto da página, uma foto do ditador soviético em 1934, com a legenda:  “Josef Stálin volta à vida (?!)”…

A única retranca na primeira página ressaltou o uso de dinheiro vivo pela família Bolsonaro em suas campanhas, seguida de três chamadas em negrito para a “floresta úmida”, os ataques de Trump à China e a politização da Covid-19 e referência chinesa à Guerra Fria ou Quente, rejeitando ambas.

A Folha fez questão de divulgar a íntegra do discurso do presidente, mas checando os pontos mais polêmicos e inaceitáveis na boca de um presidente. Ocupando as páginas centrais A12 e A13 da editoria Mundo, esgotou praticamente tudo que se podia comentar e criticar do discurso, mostrando a reação do mundo inteiro.

Na editoria opinativa, o editorial principal do veículo e dois artigos assinados analisaram de diferentes pontos de vista: Bruno Boghossian e Hélio Gaspari. No mesmo dia do discurso, nove leitores se manifestaram no Painel, com opiniões críticas.

Hélio Gaspari tem toda razão: há uma mudança de ares no Planalto: “Luta-se pelo poder. Em  maio, no ataque. Em setembro, na defesa”.

É bom lembrar também que Bolsonaro incorporou uma postura cínica dos anos 70: “A tortura não existia no Brasil, assim como não há fogo porque mata úmida não queima”.

Se a esquerda brasileira não percebe quem é Bolsonaro, o companheiro Jorge Nahas dos velhos tempos revolucionários dos anos 60, acertou na mosca: “Bolsonaro não é um desvairado, ligado apenas na sua turma de aloprados emitindo opiniões ridículas pelas redes sociais e que deu o golpe dos 600 reais. É um político hábil que soube se desvencilhar a tempo dos Witzel e dos PSL da vida e mantém ativa e potente sua sintonia com uma parcela significativa do povo brasileiro. Vamos cair na real…”


O Embaixador Tilden José Santiago é mineiro de Nova Era. Foi Deputado Federal três vezes: 1990/94/98. Foi Secretário de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável em 1999. Em 2002, foi candidato a senador e recebeu 3 milhões e trezentos mil votos. Durante a ditadura militar, participou de cinco organizações até que foi preso político no DOI-Codi e Dops de São Paulo. Na legalidade, trabalhou como jornalista e professor e militou em três partidos: MDB, PT e PSB. Em 2020 filiou-se ao PSOL. Em 2003 foi nomeado Embaixador do Brasil em Cuba e acumulou também a função em Antígua e Barbuda. Foi suplente de senador de 2011 a 2018. É padre-operario há 54 anos, tendo sido soldador, serralheiro e controlador de qualidade, em Nazaré (Israel), em Jerusalém (Jordânia) e mais tarde no Brasil: Vitória, Paraíba, Recife e São Paulo. Líder sindical e Jornalista dedicou-se também á defesa do Meio Ambiente. É licenciado em Filosofia pela UFMG, tendo ensinado na PUC-MG. Estudou Teologia em Roma. Aprofundou a questão judaica e o problema palestino, ao morar no Oriente Médio. Sua espiritualidade é ecumênica. O Movimento Fé, Política e a Revolução são a força a motriz de sua vida de contemplação e ação. Fundador da CUT e do PT, foi membro do Diretório Nacional do PSB. É autor da Lei da Guarda Compartilhada, da Lei que aumentou a punição de três para oito anos a punição para políticos cassados por corrupção (prenúncio da Ficha Limpa) e da Lei do Cabo que regulamentou e garantiu canais de rádio e de TV educativos e comunitários entre outros benefícios. É cofundador da ONG Ekopolis.


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