Bibliotecas em Contagem – Por Isa de Oliveira – #temporadadetextos

Uma cidade que pensa é uma cidade revolucionária, a biblioteca que queremos

Isa de Oliveira @corujadasletras

Contagem é uma cidade que possui uma parca política cultural, incapaz de atender toda a dimensão de uma cidade de grande porte da RMBH. Além de não possuir livrarias de bairro, pequenas livrarias ou independentes, sequer tem editoras. Não há políticas de mercado para o pequeno empreendedor cultural na cidade. A economia criativa é outra que sofre e vive na marginalização de uma política autônoma cuja as condições de sobrevida se resumem apenas a feira livre do Eldorado, que tem lutado pelo seu espaço e permanência.  O que dizer do universo de leitores onde não temos como consumir ou se apropriar de livros? Que cultura queremos para a nossa cidade?

A única biblioteca municipal existente é a do Centro Cultural Prefeito Francisco Firmo de Mattos, localizada na regional sede. Até mesmo o nome do centro cultural carrega o título de um político, o que fortalece a cena oligárquica da cidade. Onde está o reconhecimento do poder público aos autores, artistas e ativistas culturais da cidade?

A cidade possui oito regionais a saber, Eldorado, Industrial, Nacional, Petrolândia, Ressaca, Riacho, Sede e Vargem das Flores. Apenas uma possui uma biblioteca pública para atender um município com mais de 300 mil habitantes. E não bastasse isso, a única fundação que teve apenas quatro anos de existência com autonomia para  criar, formular, desenvolver e implementar políticas públicas culturais foi extinta pelo governo vigente (2016-2020).

Em 2017, o governo do Estado de Minas Gerais lançou edital de criação de bibliotecas públicas municipais, e no caso de cidades que já tiverem uma biblioteca pública local, o edital abriu oportunidade para criação de sucursais. Políticas de fomento do plano de cultura mais amplo como as políticas do livro e da leitura existem, mas porque a cidade de Contagem não aderiu? Ou se aderiu, onde estão as bibliotecas que queremos?

Que cidade é essa que não fomenta políticas culturais em prol do livro e da leitura? Que tipo de incentivo a população recebe do governo para que possa ter acesso ao livro? Uma cidade onde a economia se pauta na industrialização e no comércio varejista de primeiras necessidades. Cultura deveria ser bem de primeira necessidade, afinal nessa pandemia além da cesta básica, as famílias precisaram buscar na cultura e no entretenimento formas de sobrevivência psicológica dentro de seus lares nesses longos seis meses de isolamento social. Os dois artigos anteriores a este publicados no Portal Nova Contagem eu falei da importância da leitura nesse tempo de pandemia.

Uma cidade que cresce é uma cidade que tem boas práticas vindas dos seus cidadãos, não fica à mercê dos políticos. Uma cidade que pensa, revoluciona. É capaz de eleger aqueles que fazem por ela mais do que por si.

A leitura é uma forma de abrirmos a mente, de pensar fora da caixa, de nos incomodarmos com o que é cômodo, incomodarmos com o mesmo de sempre, de questionar aquilo que não concordamos. Quando não se oferece espaços e políticas para que as pessoas possam ter acesso ao livre pensar através da leitura, é sem dúvida um estado opressor, do silêncio e da caixa preta.

Uma cidade que não oferece a sua população bibliotecas públicas ou incentive bibliotecas comunitárias é no mínimo uma cidade refém de quem dita os rumos do livre pensar, obriga a acreditar no que é imposto.

Adultos, idosos, crianças e jovens que não leem se transformam em robôs da tecnologia digital, incapazes de responderem por seus atos, defender uma ideia e mudar o curso da história. A revolução parte de quem é capaz de absorver as críticas e o conhecimento e colocá-los a frente na realidade posta e enxergar que é capaz de fazer mais e melhor pelos seus concidadãos. A leitura aprimora nosso discernimento e sermos capazes de ter senso crítico a ponto de distinguir fake news e informações que destoam da realidade e da verdade. Contribui para dirimir pensamentos autoritários e falaciosos sobre os fatos, sobre a realidade.

Onde buscar formas de desenvolver senso crítico se não dispusermos de espaços e formas de aquisição de leitura? Coloque a leitura, o sistema de bibliotecas e o mercado do livro em pauta na roda de discussão quando o assunto político entrar na arena de sua regional. Afinal, uma cidade que pensa, que lê, revoluciona. Sejamos livres para pensar e decidir. Reivindicamos da prefeitura a biblioteca que queremos.


* Isa de Oliveira é doutoranda em Estudos de Linguagens pelo CEFET-MG, pesquisadora, poeta, resenhista e crítica literária, autora de “Intermitências” (Crivo Editorial, 2010), contagense e bookaholic que escreve para entender o mundo e se fazer entendida quando possível.


Continue lendo mais um artigo da Temporada de Textos clicando no link abaixo:

A PANDEMIA SÓ EVIDENCIA A URGÊNCIA DA REVOLUÇÃO – Por Marlon Nunes – #temporadadetextos

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