Bancas se tornam espaço para leitura regada a prosa e café


Existem atualmente cerca de 270 bancas de jornais e revistas em atividade espalhadas pelas calçadas belo-horizontinas. Essas caixinhas cinzas com laterais verdes fazem parte do imaginário popular – em geral, lembradas como lugares abarrotados de informação. Em seus 8 m², os comerciantes abrem espaço para expor todo tipo de publicação. Isso sem contar outros produtos como artesanato, guloseimas e alguns itens de utilidades. 

O lugar ainda funciona como um GPS improvisado: a banca mais próxima costuma ser onde passantes meio perdidos buscam socorro. 

Se a descrição acima é, na maioria das vezes, regra do que se vê em bancas de jornais e revistas, começam a aparecer na cidade alguns espaços ainda mais incrementados. Alguns exemplos são a Branca BH – Market Place e Café – e também o Café na Banca, instalados no bairro Luxemburgo, na região Centro-Sul da capital. 

A 150 m uma da outra, quem passa pelo lugar se surpreende com a estética moderna e minimalista das instalações, que, além de jornais, oferecem artesanatos e uma bombonière com doces, bolos e deliciosos cafés, expresso ou passado, sempre de grãos selecionados.

“Fui olhando para as bancas e senti essa vontade de ressignificar esse mobiliário que já está na cidade, criando algo que fosse inovador”, explica Fabiano Matta Machado, que é barista, filho de um cafeicultor e fundador da Branca BH. Com o lugar aberto há três meses, ele ainda se diverte com o impacto que a vista causa em quem passa. “Ontem mesmo uma senhora ficou deslumbrada!”, diz. E se alguém questiona se o lugar deixou de ser uma banca, ele logo corrige: “Continua sendo uma, mas diferente daquelas que estamos acostumados a ver”. 

Situação igual é narrada por Henrique Peixoto, do Café na Banca. “As pessoas reagem com surpresa, até se assustam! Mas de uma forma boa”, garante, completando que a ideia funciona porque, na verdade, um café é sempre pretexto para que o bom mineiro estenda a prosa.

Curiosidade. Funcionando em frente a um edifício comercial, a Branca já tem clientela fiel, como o músico Eduardo Filizzola, que sempre dá uma passadinha por lá. “Um café espetacular em uma ideia aconchegante”, define ele. Já o advogado Guilherme Bravo, 59, confessa ter sido, primeiro, seduzido pela curiosidade para, depois, brindar a boa ideia. “Ter um lugar para fazer uma pausa é coisa que mineiro gosta. Faz bem para amenizar a rotina ter um lugar para papear, ler o jornal e tomar um café”, reflete.

“A gente passava por aqui no automático, mal se cumprimentava”, observa a auxiliar de vendas Patrícia Rezende. Agora, há uma banca no meio do caminho, que transformou a geografia social dali. “Virou lugar de interação”, comemora ela.

O que diz a lei
Letras frias. A venda de cafés, doces, quitutes e artesanatos não fere o Código de Posturas de BH, em vigor desde 2003. Nele, está previsto o comércio de bombonière e artesanatos, entre outros itens.

Mineiridade

Histórico. A turismóloga e administradora pública Izabella Torres vê o café como “pretexto para encontros” e lê o fenômeno de um prisma histórico: a transição do ciclo do ouro para o ciclo cafeeiro.

Unidade.“Uma época de abundância, as fazendas produziam de tudo, sendo o café a unidade. Sobrava muito e, quando chegava uma visita, virava um evento”, diz.

Ambiente ganha ares de confraria 

Mais que uma simples bebida, o café está na raiz da mineiridade. Sorvê-lo com calma, enquanto estende a prosa, é característica de quem nasceu por aqui. Tanto que, para um cafezinho, não tem muita hora ou lugar – e mesmo uma tradicional banca de jornais e revistas pode representar um irresistível convite a uma xícara fumegante. 

É o que acontece às segundas e sextas-feiras, no bairro Anchieta, na região Centro-Sul da capital, onde o fotógrafo Weber Pádua e o comerciante Roberto Fonseca promovem encontros movidos a café.

A história começou com os insistentes convites de Fonseca para que Pádua experimentasse uma xícara ali na banca antes ou depois das aulas de natação que fazia por perto. “Eu sempre fazia. Vejo que as pessoas acordam cedo para trabalhar e muitas vezes não têm tempo para comer em casa. Então, para mim, era uma forma de ajudar, de ser cortês”, lembra o dono da banca. O fotógrafo relutou por um tempo, até que teve uma ideia: apresentar ao amigo todas as possibilidades de grãos, torras, cheiros e sabores que a bebida traz consigo.

“O Webinho foi trazendo tudo, balança, moedor, e a gente foi criando, de pouco em pouco, esse ritual”, lembra o comerciante. Desde então, a reunião foi crescendo. Agora, é um evento que, de fato, mobiliza as pessoas. 

“A gente não pede, mas quando acontece todo mundo traz uma coisa, um pão de queijo, um biscoito, e assim vamos compartilhando companhia, conversa, falando de café, das notícias do dia”, alegra-se Fonseca, que passou a oferecer aos visitantes o queijo que o sogro produz na serra da Canastra. 

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