Apesar de ser uma reação normal, impulsividade pode levar a situações de risco


“Show de impulsividade”. Foi assim que Bruna Marquezine classificou o entrevero que teve nas redes sociais depois de discutir com seguidores que a criticaram por ter feito uma viagem a uma ilha privada com um grupo de amigos no réveillon e por ter aparecido em uma foto, após um trekking com o namorado Enzo Celulari, sem máscara. Nas publicações, posteriormente apagadas, Bruna desabafou sobre os ataques sofridos. “Você vive comigo pra saber que dor eu tô sentindo ou deixando de sentir? Meu pai passou o ano novo sozinho internado por causa desse vírus maldito. Passei a virada chorando por FaceTime”, escreveu. Após o embate público, arrependida do próprio comportamento, a atriz de 25 anos chegou a desativar sua conta no Twitter. Horas depois, ela voltou a habilitar o perfil, se desculpou com os fãs e prometeu “rever a maneira como devo lidar com esses tempos difíceis”.

A artista não é a primeira e tampouco será a última a precisar pôr em revista a forma como lida com a própria animosidade – palavrinha que, aliás, ficou muito em voga desde a passagem de Karol Conká no reality “Big Brother Brasil”. Dentro e fora da casa, a rapper admitiu ter problemas para controlar emoções como a raiva e o ciúme. Outro participante do programa que reconhece que o autocontrole não é o seu forte é o economista Gil do Vigor, que protagonizou diversos episódios classificados por ele como “surtos”.

E é provável que, assim como Bruna, Karol e Gil, a maioria das pessoas consiga se lembrar facilmente de situações em que se perceberam “saindo do eixo”. “Não vamos nos enganar. Estamos falando de algo absolutamente normal a que todos nós estamos sujeitos”, avalia a psicóloga e psicanalista Sônia Eustáquia, complementando que isso acontece, na maioria das vezes, quando, por uma série de fatores, não conseguimos elaborar um evento antes de reagir a ele.

A verdade é que, às vezes, parece impossível pensar duas vezes. É o que aponta a especialista em comportamento humano e produtividade Carolina Jannotti. “Em algum momento da vida todo mundo acaba agindo de forma mais impulsiva, e não há grandes problemas nisso, o importante é avaliar a frequência, intensidade e o nível das consequências adquiridas”, diz. “Quando a intensidade é grande e a frequência alta, o hábito é criado e feito de forma automática e inconsciente, o que pode causar diversos prejuízos no campo pessoal e profissional, além de constantes alterações emocionais provenientes dos sentimentos de culpa e arrependimento”, sinaliza.

E, para muitos, o remorso chega rápido. “No instante em que notamos que exageramos, tendemos a tentar reprimir ou corrigir o que foi dito ou feito, o que é impossível. Não dá para voltar no tempo e desfazer o que foi feito. Mas podemos, por outro lado, aprender com essas experiências”, complementa Sônia.

Ela alerta que, embora todos possam, em algum momento, “perder as estribeiras”, algumas pessoas têm uma tendência maior de agir por impulso. Isto é, enquanto alguns, mesmo em ambientes estressores e em situações em que estão mais ansiosos, conseguem respirar fundo e contar até dez antes de agir, outros saem da linha mais facilmente. “Nesse caso, estamos falando de pessoas que têm predisposição genética para esse temperamento e/ou de alguém que não foi educado no sentido de saber se conter, e cuja história de vida percebe-se baixa tolerância à frustração”, detalha.

Impulsividade tende a colocar pessoas em situação de risco

Para a psicóloga e terapeuta comportamental Thaiana Brotto, entre as emoções, a ansiedade é o principal disparador de comportamentos temerários. “Essas pessoas, que têm mais dificuldade de autocontrole e de racionalizar rapidamente sobre uma situação que acabou de acontecer, costumam ser mais vulneráveis a apresentar transtornos ansiosos e comorbidades”, informa, lembrando que algumas condições psicológicas favorecem a impulsividade, caso do Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) e do Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), por exemplo.

Além disso, ela alerta que pessoas com esse perfil mais irreflexivo tendem a ser mais propensas a se colocar em situações de risco. “Quando estamos tomados de ansiedade e de angústia, encontramos nos comportamentos impulsivos uma sensação de alívio momentâneo, de despressurização. Trata-se de uma válvula de escape”, expõe. 

O ‘eu’ em camadas

Thaiana Brotto pondera que é difícil falar em alguém que, genericamente, seja impulsivo, como se esse fosse um padrão permanente e que atravessasse todas as dimensões de sua subjetividade. “A pessoa pode ter uma compulsão sexual, que pode ter origem em um trauma, por exemplo. Em contrapartida, profissionalmente, ela pode ser paciente, calma e analítica”, detalha.

“Esse agir por impulso, quando dirigido a um aspecto específico, pode significar inclusive uma forma de compensar todo esse esforço de acúmulo de emoções”, avalia Thaiana, mencionando como exemplo o caso daquela pessoa que, após enfrentar uma rotina de estresse, faz compras compulsivamente. “É algo que vai trazer uma sensação boa, de que a vida está acontecendo, de que tudo valeu a pena. Mas, por outro lado, a própria pessoa tende a entender que há um problema ali e se sentir culpada por isso”, diz.

Carolina Jannotti faz análise similar. “Ter dificuldade de se controlar, buscando um prazer imediato sem medir consequências e renunciando à recompensa futura é típico deste comportamento e por isso há uma grande relação com vícios e desequilíbrios emocionais”, assegura.

Para Thaiana, o ideal, nesses casos, é dosar essas recompensas. “Temos a tendência de ter uma válvula de escape, e tudo bem. Mas cada um precisa saber o seu limite, entender suas emoções e sentimentos para buscar outras formas de lidar com isso. É crucial entender que não existe só esse recurso para lidar com a adversidade”, aconselha.

Manejo da impulsividade e seus aspectos positivos

Sônia Eustáquia pontua que a impulsividade não deve ser lida como algo necessariamente ruim. Trata-se, afinal, de um elemento da natureza humana, sendo um componente da pulsão de agressividade, que tem origem na raiva, uma condição tão natural quanto o medo e o amor.

“Estamos falando de uma ordem emocional desencadeada como uma resposta a uma motivação. Nesses episódios, há todo um arranjo neuropsicológico que empurra minha parte motora a dar uma resposta de imediato”, explica. “Se aprendemos a lidar com a nossa impulsividade e conduzimos ela com assertividade, podemos ter ganhos significativos”, sugere. No mesmo sentido, Thaiana Brotto reforça que, quando manejada conscientemente, esse ímpeto pode ser direcionado à solução de problemas e à proatividade.

Por outro lado, Carolina Jannotti alerta que, embora em situações específicas a pessoa impulsiva possa ser vista como corajosa e ousada, na maioria das vezes o comportamento não traz consequências positivas. Ela concorda que posturas temerárias e proativas têm como origem um mesmo radical: a iniciativa. Mas pontua que há uma tênue linha entre uma coisa e outra. Resumidamente, diz, “o impulsivo é conhecido por criar problemas, o proativo é reconhecido justamente por solucioná-los”.  

O que fazer. Se a pessoa sente que atitudes impulsivas têm sido prejudiciais para ela ou para os outros à sua volta, sinal de que será preciso aprender a lidar com esse comportamento. Nesse cenário, a ajuda da psicoterapia é bem-vinda, sugere Thaiana, que adverte: “Mudar um comportamento, não é algo fácil. Ao contrário, é algo que demanda tempo e esforço”. 

Um passo importante é a compreensão de que o problema existe. Mas isso não significa que essa característica que, exacerbada, vem causando dores de cabeça, precise ser eliminada. “A gente tem que aprender a se acolher, a se aceitar. E devemos saber que é normal ter uma recaída. Temos que validar as nossas frustrações, ter compaixão conosco”, assinala.

Atenção aos gatilhos. “Um bom primeiro passo é observar meus pensamentos e como eles se modificam a partir dos espaços que frequento, do que acontece ao meu redor. Para isso, é importante nos manter no presente, evitando uma constante expectativa e medo do futuro, que caracterizam a ansiedade. Isso vai nos ajudar a entender se há um padrão, se há um gatilho que desperta esse comportamento e quais fatores estão por trás disso”, recomenda Thaiana.

Mude o foco. “Para as pessoas que sentem vontade incontrolável de fazer algo, vale tentar quebrar esse padrão de fuga, de busca de alívio. Uma maneira de fazer isso é, ao sentir desejo de fazer algo que julgamos que será nocivo, buscar outra atividade, da qual gostamos e que também nos dão prazer”, completa.

Práticas meditativas. Já Carolina Jannotti lembra que algumas técnicas simples podem ajudar o sujeito a perceber melhor o momento presente, se dando conta de suas reações e dos gatilhos que despertaram um comportamento de impulsividade. “Dedicar-se ao autoconhecimento e ao desenvolvimento da inteligência emocional é fundamental para criar estratégias eficazes e lidar melhor com comportamentos e situações. Além disso, a prática de meditação e respirações conscientes e profundas podem aumentar o autocontrole e ajudar no equilíbrio das emoções”, avalia.

 

Fonte do link