Ambulâncias não chegam em favelas do Rio, e famílias carregam doentes e mortos


Na última semana, um homem morreu com suspeita de coronavírus em sua casa no alto de um dos morros do Complexo do Alemão. Era feriado e os médicos da clínica da família, que normalmente vão até o local e fazem o atestado de óbito, estavam de folga.

Por telefone, orientaram então a família a chamar uma ambulância do Samu, que também é responsável por esse serviço no Rio de Janeiro, mas ela nunca veio. A solução foi colocar o morto no carro e encarar a descida até a unidade de pronto atendimento (UPA) da região.

Nas favelas do Rio de Janeiro, essa não é uma situação rara. Primeiro porque grande parte dessas áreas é considerada de risco pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência. Segundo porque as vielas e escadas muitas vezes são obstáculos intransponíveis.

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Somam-se a esses fatores ainda o controle territorial por organizações criminosas que, em alguns lugares, impõem barricadas ou barreiras. O resultado são famílias, vizinhos e profissionais de saúde que têm que carregar os mortos e doentes por conta própria.

Esses gargalos se agravam ainda mais diante de uma escalada de casos e óbitos pelo novo coronavírus nas comunidades cariocas, onde há uma grande subnotificação, segundo médicos de família, agentes comunitários e moradores de diferentes favelas ouvidos pela reportagem. Nenhum deles quis se identificar, por isso os nomes foram trocados.

Só na Rocinha, por exemplo, as mortes pela Covid-19 confirmadas (29) até esta quarta já superaram a média mensal de mortes em geral nos últimos quatro anos (25). O número, compilado por médicos locais, é o dobro do que constava no painel oficial da prefeitura (14).

Outro dado que mostra a disparada e a subnotificação dos casos são as solicitações por ambulâncias em unidades de saúde básica. Essas são diferentes do Samu: são da prefeitura, chamadas pelos médicos e geralmente não têm problemas para entrar porque só vão até as clínicas, de mais fácil acesso.

Os números de quatro unidades obtidos pela reportagem mostram que foram 80 solicitações em março e abril deste ano para casos de síndrome respiratória aguda grave, condição que pode ou não estar associada ao coronavírus, ante só 11 no mesmo período do ano passado –um aumento de 627%.

Essas quatro unidades ficam em três comunidades: Rocinha, Manguinhos (zona norte) e Catumbi (centro). Em uma das clínicas do Complexo do Alemão, onde não foi possível fazer a comparação com 2019, esse tipo de ambulância foi chamada 5 vezes em março e 50 em abril, dez vezes mais.

Sobre os acionamentos do Samu, o Corpo de Bombeiros afirmou que não é possível extrair o dado por favelas, porque o registro é feito por vias. Nesses casos, é fácil encontrar histórias de moradores que já esperaram horas por ambulâncias que nunca chegaram.

Em Manguinhos, recentemente uma idosa que mora sozinha ficou dois dias caída dentro de casa após torcer o tornozelo, sem conseguir se mexer. Os vizinhos ficaram com medo de se aproximar por causa do coronavírus, então só mandavam comida e água de longe.

Ela era pesada, e os profissionais de saúde locais não conseguiam removê-la para a UPA. Ligaram para o 192, do Samu, fingindo ser moradores, mas ouviram que não havia ambulância disponível. Ela só foi carregada e colocada num carro depois que eles convenceram os vizinhos de que não era um caso de contágio.

Na mesma favela, há duas semanas, o agente comunitário Julio teve que negociar com socorristas para que a ambulância entrasse. “Eles não queriam entrar de jeito nenhum, tive que explicar que não dava para locomover o paciente. Isso acontece algumas vezes, mesmo a gente dizendo que está seguro”, conta.

Além das barreiras sociais, existem as barreiras físicas. No morro da Mineira (centro), o médico Henrique conta da vez em que tiveram que improvisar uma lona preta como se fosse uma rede para transferir um paciente de sua casa para a UPA.

As vielas eram tão estreitas até lá que nem a maca passava pelas curvas, então quatro homens o pegaram pelas pontas da lona. “Nas favelas existe uma rede de solidariedade, cada um cuida do outro. É diferente da zona sul, onde ninguém conhece nem o vizinho”, diz.

Seja pela violência ou pela dificuldade geográfica, é comum que os moradores precisem levar a pessoa doente ou ferida até a ambulância em uma rua principal ou mesmo fora da comunidade. Recomendar esse deslocamento inclusive faz parte dos protocolos do Corpo de Bombeiros em alguns locais.

A corporação disse que, a partir de uma análise subjetiva, classifica as áreas de risco como áreas de conflitos previsíveis (onde está havendo tiroteio) e imprevisíveis (onde há probabilidade de confronto), levando em conta o dia, a hora e o lugar da ocorrência, entre outros fatores.

“O objetivo é garantir que o atendimento seja prestado, sem descuidar do zelo pela integridade física da guarnição. […] A equipe que não se sentir segura em ingressar em determinado local para qualquer tipo de atendimento pode acionar apoio policial”, afirmou o órgão em nota.

Nos casos em que há tiroteio, as ambulâncias não entram e as unidades de saúde fecham, também seguindo protocolos internos. Mas, com o início da pandemia, os médicos dizem que os confrontos diminuíram. “Na semana passada teve um, mas a gente já está há umas duas semanas sem”, diz João, de Manguinhos, onde antes havia conflitos quase diários.

Normalmente, as ambulâncias chegam nas favelas com a sirene desligada, os vidros abertos e o farol baixo, assim como qualquer carro de fora.

Em comunidades como Alemão e Palmeirinha (zona norte), é comum elas passarem por barreiras do tráfico–em áreas de milícia como Campinho (zona oeste) há menos dificuldades nesse sentido. Para evitar problemas, os moradores geralmente avisam ao comando da facção que o Samu foi acionado.

No morro da Mineira, já aconteceu de os socorristas terem que abrir a porta de trás do veículo para mostrar que não havia intrusos de facções rivais ou policiais. No geral, porém, as ambulâncias não são impedidas de passar.

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