Ailton Krenak inaugura nesta terça-feira o projeto 'Conversas sobre Perguntas'


Refletir é sempre preciso – mas, agora, parece ser mais do que nunca. Obviamente, o termo não está sendo usado aqui no sentido de precisão, mas sim no de atender a uma necessidade – que se instala em momentos como o que a humanidade vive atualmente, quando, com o advento do novo coronavírus, o mundo a que tínhamos a impressão (ainda que ilusória) de conhecer, vira de ponta-cabeça, deixando convicções e certezas em desalinho. 
 
E é para lançar questões e provocar reflexões acerca de nossa época que quatro equipamentos culturais integrantes do Circuito Liberdade  – Casa Fiat de Cultura, CCBB BH, Memorial Minas Gerais Vale e do MM Gerdau – Museu das Minas e do Metal – uniram forças para lançar, hoje, o webinário “Conversas sobre Perguntas”. Com curadoria colaborativa, o evento promoverá, até o dia 18 de agosto, sempre às terças-feiras, às 17h, encontros online, gratuitos, mediados pela jornalista Daniella Zupo. As palestras serão transmitidas nos canais do YouTube dos espaços culturais. Na estreia, hoje, quem explana sobre o momento é o líder indígena, pensador e escritor mineiro Ailton Krenak. 
 
Também já estão confirmadas as presenças da da futurista Lala Deheinzelin (dia 21), do economista e professor Eduardo Albuquerque e da administradora e professora Grazi Mendes  (dia 28), do psicanalista Christian Dunker (4/8), da escritora Conceição Evaristo e da crítica de arte Júlia Rebouças (11/8) e, no encerramento, no dia 18/8, palestrante a confirmar. O webinário entra em cena com o intuito de debater o futuro em um mundo pós-coronavírus, convidando expoentes de campos distintos, como os da filosofia, psicanálise, arte e espiritualidade, para citar alguns. 
 
Nesta terça, pois, às 17h, com transmissão pelo YouTube da Casa Fiat de Cultura, Ailton Krenak fala sobre “As Potências do Afeto”. “Em um dos textos meus que circularam recentemente, sugeri que o vírus é oportunista e que se aproveitou de um descuido nosso, da humanidade, que se tornou de tal forma egoísta que acabou deixando um vácuo, uma brecha, na qual ele conseguiu se infiltrar. É uma imagem apelativa para a ideia dos desafetos, mas se não somos capazes de produzir afetos, vamos acabar criando espaço para eventos como esse. A nossa indiferença pode produzir danos irreparáveis, e, quando acordarmos, pode ser que não seja possível mais consertar o estrago”, diz, acrescentando que o homem tem atuado no planeta como uma espécie de “peste”. “O que, consequentemente, nos fez ser indesejáveis. Então, ou a gente muda o nosso destino na Terra ou vamos ser afastados dela por ‘falta de educação’, de ‘modos’, de afeto. Na Bíblia, já no Gênesis, a gente vê que o ente criador logo ficou decepcionado com o homem. Só que, no curso da história, o homem não se emendou. Só inventa desculpas esfarradas para continuar fazendo igual”, diz, decepcionado.
 
Krenak compara o ser humano a um aluno que se recusa terminantemente a aprender a lição. “Às vezes, tenho a impressão de que somos aquele estudante que já foi chamado na sala da diretora da escola uma dezenas de vezes, para ser alertado e repreendido, mas que não se emenda. Até que, certo dia, ele é convocado mais uma vez e chega lá com a mesma  cara de ‘O que foi?’. ‘Foi que agora você não é mais aluno, pode ir embora’ (representando um hipótetico diálogo entre diretora e aluno). É isso, se estamos aqui, na Terra, para aprender alguma coisa, e não nos esforçamos nada para isso, vai chegar uma hora em que vamos ser expulsos”, entende. 
 
Nestes tempos de pandemia, a quantidade de alunos não aplicados, digamos assim, tem deixado Ailton notadamente consternado. “É desolador pensar um mundo no qual não há empatia, no qual não se reconhece a existêndia do outro. Como quando você vê, na televisão, imagens de pessoas se aglomerando quando anunciam a abertura de um shopping-center. Para quê? Para comprar uma pulseira, um colar?”. 
 
Outro exemplo que ele usa foi o lançamento recente do foguete da Nasa, já com a pandemia em curso (lembrando que os Estados Unidos lideram o número de mortes pela doença). “Será que o orçamento que foi destinado a essa finalidade não teria sido melhor aplicado se tivesse sido direcionado a pesquisas em torno de uma vacina contra a Covid-19?”, argumenta. “Então, é sobre isso que vou falar. Hoje, temos um universo de conhecimento sobre tudo, mas descolado da experiência de vida, de bilhões de vidas”, lamenta. “Estamos criando labirintos para nos tornarmos inviáveis aqui na Terra. Assim, obviamente, vou, na minha fala, tentar falar sobre a possibilidade de nos afetar com a vida. Não adianta acharmos que a gente mora ‘num país tropical, abençoado por Deus, e bonito por natureza’ e o resto do mundo se danando. ‘Ah, estão jogando bombas nos palestinos, mas é muito longe’. Muitos brasileiros só se deram conta das queimadas na Amazônia quando a fumaça atrapalhou o ar de São Paulo, quando se viu um fog na avenida Paulista e começou a cair fuligem nas toalhas brancas penduradas nos varais”, prossegue ele.
 
Em tempo: em agosto, Ailton Krenak vai lançar outro livro pela Companhia das Letras, “A Vida Não é Útil”.  “É uma referência ao pensamento que acha que tudo tem que ser mercadoria, e que calcula o sucesso de uma vida se fulano construiu um império, uma coisa monumental. Não há coisa mais imbecil. A vida não é um empreendimento, mas uma dádiva, um dom, fruição. Não é para ser pensada como uma máquina registradora. Depois que você destruiu rios, florestas, que matou o Carlos Drummond de Andrade, você faz o quê, com o que conquistou? Enfia no caixão?”, encerra. 
 
Confira, a seguir, depoimentos dos gestores dos equipamentos envolvidos na iniciativa:
 
* Ana Vilela – Casa Fiat de Cultura
“É uma iniciativa que nasce em um momento muito significativo para a humanidade, que é esse de transformação acelerada, de mudanças radicais no modo de fazer, de pensar, de viver. É nesse cenário que surge esse novo modo de fazer também, que é coletivo, cooperativo, colaborativo. Essas quatro instituições – Casa Fiat de Cultura, CCBB BH,  MM Gerdau – Museu das Minas e do Metal e Memorial Minas Gerais Vale -, que têm posições e programações distintas, mas que têm em comum o desejo de criar espaços para gerar conhecimento, novas visões de mundo;  pensaram o ‘Conversas sobre Perguntas’. E por quê ‘Conversas sobre Perguntas’, e não ‘Respostas sobre Perguntas’? Porque nós também não temos as respostas neste momento. E a ideia é exatamente construir essas respostas também de forma colaborativa e cooperativa. Assim, buscamos entrelaçar várias formas de pensamento, teorias e ideias, que vão da psicanálise à ciência, da futurologia à filosofia, às artes, à literatura. E, a partir desse percurso, com as conversas que teremos, vamos, então, ver que mundo é esse que surge. Que momento é esse que estamos vivendo e em que direções podemos ir. 
É um projeto que está nos entusiasmando muito, porque também tem a colaboração das equipes de cada uma das instituições, seja na curadoria, no desenvolvimento dos temas, na escolha dos convidados e na produção digital, até no financiamento. E graças também a esse formato, está sendo possível viabilizar um projeto tão importante assim, reunindo uma equipe transversal, um time multidisciplinar, para co-criar dentro desse novo espírito de cooperação, de coletividade,  que começa a reger a sociedade, que está sendo exigido agora, neste momento de pandemia. Esse webinário é um convite para pensar o novo, o desconhecido, e tentar construir este novo mundo que está por vir.  Esperamos que seja muito enriquecedor e, também, um momento de reflexão importante”.
* Leonardo Camargo – CCBB BH
Acredito que, com a chegada da pandemia, houve uma aceleração muito forte das mudanças na nossa sociedade, mudanças profundas, na forma de conviver, novos hábitos de consumo, novas formas de trabalhar… São mudanças que vão marcar gerações. Acredito também que a cultura tenha um papel fundamental na reflexão desse ‘novo normal’, dessa nova forma de viver. Esse evento colaborativo propõe discutir, refletir sobre todas essas mudanças, e foi pensado em conjunto com meus pares da Praça da Liberdade. Para a gente, tem sido uma construção muito rica, um marco na trajetória do Centro Cultural Banco do Brasil aqui, em Belo Horizonte 
* Wagner Tameirão – Memorial Minas Gerais Vale
O webnário envolve quatro espaços culturais do Circuito Liberdade. Um dos objetivos é manter o contato com o público desses equipamentos durante esse período de isolamento social. Essa iniciativa demonstra a importância e a necessidade de colaboração. E o evento busca especialistas de diversas áreas do conhecimento para pensar, refletir, buscar inspirações para os espaços culturais e para a sociedade.

* Márcia Guimarães _ MM Gerdau – Museu das Minas e do Metal

Desde o fechamento dos equipamentos  culturais do Circuito Liberdade, no final de março, aconteceu uma aproximação natural das equipes das instituições, e, nesses encontros, nos fazíamos perguntas sobre o futuro, assim como outros tantos brasileiros. O que seria o tal ‘novo normal’, de que tanto estavam falando? E essas perguntas não eram só do âmbito cultural, de nós como instituições culturais, mas também como sociedade. Acabamos concluindo que certamente a mairoia das pessoas também estava fazendo essas perguntas e tantas outras. E surgiu a ideia do webnário. Decidimos, então, criar um grupo para fazer uma curadoria cooperativa, colaborativa, e pensar em nomes de especialistas e estudiosos que pudessem tentar responder essas tantas pergutntas. Assim, acabamos chegando nessa programação incrível, com nome muito relevantes. Nossa expectativa não é só tentar levar um pouco de respostas, é também levar esperança, inspirações para reflexões para a construção de um futuro desejado por tantos. Estamos muito felizes e torcendo para que muitas pessoas participem dos bate-papos virtuais.

 

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