Ação e Reação – Por Wilson Albino Pereira – #temporadadetextos

Foto- Wilson Albino Pereira
Wilson Albino Pereira

Na cabeça, dúvidas. Na mão direita, caneta Bic azul. Na esquerda, caderninho espiralado, e, na primeira folha, uma anotação: Cemitério do Bonfim, Rua Bonfim N° 1.120, (entrevista com Sr. Luiz Carlos Zaidan – coveiro), às 15h. Perguntei na administração sobre o dono do nome escrito na caderneta. Apontaram-me o homem. Ao aproximar-me de Luiz, saudei-o, e ele, desconfiado, saudou-me de volta. Notei que estava com as mãos nos bolsos. Disse-lhe que pretendia escrever sobre a profissão tão estigmatizada que ele exerce. Apresentei-me, e, ao lhe estender a mão, houve da outra parte uma leve recusa. E na sequência ouvi a frase: “Não, não, filho, minha mão ‘tá’ suja”. Com a mão deixada no vácuo, disse-lhe que o motivo de minha ida era colher informações para escrever sobre aquela profissão, a fim de que as pessoas deixem de ser tão preconceituosas e respeitem o ofício e seus trabalhadores. “Além disso, meu camarada”, falei, “um dia, também seremos só pó no pó”. O olhar do Luiz ficou lacrimoso. Segundos depois, não só me estendeu a mão, como também me abraçou e disse: “Ah, você é simples, né? “É ‘igualzin’ eu”. Depois, ele me relatou que, ali, já fora achincalhado e humilhado pelos parentes dos mortos. Enquanto caminhávamos por entre lápides de mármore e monumentos de bronze, pensei na quantidade absurda de pessoas orgulhosas que se consideravam insubstituíveis e, agora, abreviam-se a ossos que repousam em covas ou agrupados em pequenas caixas de zinco, esquecidas no fundo do ossuário geral. “Você estuda o que, mesmo?”, perguntou-me. “Jornalismo”, respondi. “Vigia”, aconselhou-me. “Não deixa que a vaidade faça com você o que fez com muita gente que agora mora aqui”, aconselhou.


*Wilson Albino Pereira é Jornalista e Fotógrafo, residente em Contagem-MG

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