A psicanálise da heroificação do indivíduo mediano e do culto ao medíocre – Por Marlon Nunes – #temporadadetextos

Marlon Nunes

Não estamos especialmente interessados na psicanálise como uma espécie de terapia clínica apenas, mas, com o que as suas teorias podem dizer sobre a sociedade, especialmente no que diz respeito ao que ela tem feito dos indivíduos que a compõem e como a relação de satisfação social está creditada nos produtos culturais a eles expostos. A busca pelo conceito psicanalítico de narcisismo se faz compreensível devido ao entendimento de que os indivíduos estão sendo formados para exercer funções de sustentáculos do próprio sistema, ou seja, ao completar as partes que lhes faltam tornam-se, dialeticamente, desprovidos da autodeterminação, com a própria formação sendo previamente definida em sua dissociação, nivelamento e absolutização. A formação cultural converteu-se em enformação socializada na onipresença do espírito alienado. A pressão que exerce sobre os homens, perpetua o não-formado que pensa ter se formado. Este é o real fundamento do mal-estar na cultura.

Esse mecanismo que fomenta a formação cultural é subjetivo e só se torna atual pela identificação. Por diante a semicultura colocou ao alcance de todos o narcisismo coletivo que alimentado pelo mecanismo da indústria cultural faz com que as pessoas compensem a consciência de sua impotência social. Ao compensarem a sua impotência nas imagens e nos produtos mercadológicos, ritualística e momentaneamente, os indivíduos diminuem, o seu sentimento de culpa por nada poderem fazer ao seu próprio destino. E, logo depois, de quaisquer aquisições já estão novamente desejando externarem-se nas ordinárias aquisições. Ou compra ou culpa-se, ou culpa-se ou compra. É assim que o indivíduo contemporâneo identifica-se. E ele mesmo é que é vendido e comprado. É ele que é negociado. O seu tempo, o seu caráter, a sua dignidade são postas à prova e o que lhe resta é apenas as suas personas, as suas máscaras.

Colocam-se a si mesmos, imaginariamente, como membros de um ser mais desenvolvido: O Deus mercado, O Deus tecnologia, e assim, entregam-se aos constantes upgrades do sistema, simulando a maior ou a menor integração com quaisquer palavras da moda. Numa constante remodelação do imaginário paterno pelo ego coletivo dos objetos, nos ambientes das sociedades informacionais, a busca de referencial direciona-se para quaisquer coisas que sejam exibidas pelos mecanismos da indústria cultural: astros do rock, reality shows, filmes, telenovelas, blockbusters.

No tempo de Freud a histeria e a neurose obsessivas já eram associadas com a ordem capitalista. A ideia de formação está analogamente ligada à alucinação do preconceito que exige do indivíduo o mínimo para que ele alcance a satisfação social no narcisismo coletivo. Frequentar determinada escola, pertencer à determinada família, fazer algum tipo de esporte da moda ou opinar sobre aspectos sociais dos mais variados, indiscriminadamente, é a ordem do discurso tautologicamente sem limites, mas mais que limitado.

Considera-se então a projeção como a incapacidade do Eu em preencher suas funções. Os traços psicopatológicos da socialização na semiformação (enformação) estão a contaminar toda a sociedade espalhando-se como o tipo dominante de pensamento. Da identificação com o agressor, quer dizer, a aproximação do indivíduo com o sistema que o oprime, com os mecanismos dominantes na gênese da indústria cultural. O que é individual passa à coletiva, no sentido de que, a individualidade é influenciada por uma falsa ideia de comparação com o todo através da interatividade, e sustentado assim está, progressivamente, o status quo. Os limites do conhecimento tradicional estão depositados justamente na entrega ao objeto pensado, não havendo um significado no processo de conhecimento, a não ser o reprodutibilista. O que a informação proporciona é isso: falsas necessidades de aparatos desnecessários e indivíduos a cada instante mais perdidos nesse emaranhado. É preciso oprimir, tornar-se também um opressor. E não ouse fazer o contrário. É preciso ser medianamente medíocre.


Marlon Nunes é professor mestre em Estudos de Linguagens, escritor e psicanalista em Contagem-MG. Possui dois livros publicados: “A solidariedade vai até onde vai o interesse” e “O corpo hiper-real em Crash e a festa tecnológica: sedução, simulação e fragmentação”.


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