A POLÍTICA DA RAIVA – por Marcos Fabrício Lopes da Silva – #temporadadetextos

Fonte: Pinterest

O homem encarregado pelas urnas de dirigir os destinos nacionais

 

choca diariamente a maioria dos brasileiros com declarações absurdas, baseadas em devaneios e despejadas sem qualquer respeito pelas normas da democracia e mesmo da civilidade. Tal comportamento irrefletido torna imprevisível tudo o que emana do gabinete presidencial. Hoje, sob esse comando irracional, é impossível dizer para onde vai o País. Governa-se, ou deveria ser assim, com ações. As palavras servem para explicar e justificar as condutas. Ambas, ações e palavras devem ser precedidas de reflexões, análises e ponderações. A palavra pode preceder a ação, mas se esta não for efetivada ou se não estiver consentânea com o que foi dito e anunciado, a palavra será desvalorizada, e o seu autor ficará desacreditado. Ademais, pensamentos e ideias devem estar previamente alinhados com projetos de interesse coletivo, e não representar desejos pessoais, desalinhados dos anseios da sociedade. Não havendo esse alinhamento, melhor seria o silêncio.

Ódio é um veneno que se toma esperando que o outro morra. Não se deve abrir mão deste bem precioso chamado: “paz de espírito”. Para manter contato com pessoas tão díspares, há que se reconhecer a importância do princípio da tolerância. Nunca fecho as portas à possibilidade de uma boa amizade. Aliás, condição primeira para ser feliz, frisou o velho Aristóteles, há 24 séculos. A boa democracia, tão apregoada e pouco praticada, exige que não se converta a diferença em divergência. O que temos de comum é o que todos almejamos amar e ser amados. Não há como erradicar a miséria, reduzir a criminalidade e a desigualdade social sem a atividade política. A política serve para oprimir e favorecer a corrupção, como também para libertar e punir os corruptos. Tudo depende do modo como ela é exercida. Alteridade ou violência, eis a questão! Não consigo comungar do ceticismo amargo expresso por Luiz Felipe Pondé: “Não há nada de virtude aqui, apenas um sutil equilíbrio de vícios. Não confio em pessoas éticas. Quando encontro uma delas na rua, atravesso para o outro lado” (Contra um mundo melhor: ensaios do afeto, 2013).

Oito séculos antes de Cristo, o profeta Isaías já havia prefigurado a utopia de uma sociedade na qual a implantação da justiça assegurará o advento da paz: “Vejam! Vou criar novo céu e nova terra. As coisas antigas nunca mais serão lembradas, nem voltarão ao pensamento. Fiquem alegres! Exultarei com Jerusalém e me alegrarei com o meu povo. E nela nunca mais se ouvirá choro ou clamor. Aí não haverá mais crianças que vivam alguns dias apenas, nem velhos que não cheguem a completar seus dias; pois será ainda jovem quem morrer com cem anos… Quem construir casa nela habitará, e quem plantar vinhas comerá de seus frutos. Ninguém construirá para outro morar, nem semeará para outro comer, porque a vida do meu povo será longa como a das árvores, meus escolhidos poderão gastar o que suas mãos fabricarem. Ninguém trabalhará inutilmente, nem gerará filhos para morrerem antes do tempo, porque todos serão a descendência dos abençoados de Javé, juntamente com seus filhos. Antes que me invoquem eu responderei; quando começarem a falar, já estarei atendendo. O lobo e o cordeiro pastarão juntos, o leão comerá capim junto com o boi… Em todo o meu monte santo ninguém causará danos ou estragos, diz Javé” (Is 65, 17-25).

Sem esperança, resta chover no molhado. Aceitar a realidade tal como é significa elogiar a inércia e, assim, podar o nosso poder transformador. Perigosamente, vem fazendo história a conveniência preguiçosa. Os políticos são considerados autoridades. Ora, a rigor, autoridades somos nós, o povo brasileiro, que os elegemos, pagamos seus salários e todos os gastos do exercício de seus mandatos, da conta de luz do Palácio da Alvorada ao combustível que move o avião presidencial. Sem utopia a política se apequena. Torna-se mero jogo de poder em função de ambições pessoais e interesses corporativos.

É preciso pôr fim à carreira política daqueles que sempre defenderam os privilégios da minoria contra os direitos da maioria. O Brasil merece sair do atraso, ampliar suas políticas de proteção social, aumentar os recursos na saúde e na educação, reduzir drasticamente a desigualdade social, fonte da violência que assola o país. Menos cadeias e mais escolas. Menos agrotóxicos e mais agricultura orgânica. Menos veículos particulares e mais transportes coletivos. Menos especulação financeira e mais produtividade. Menos criminalização dos movimentos sociais e mais respeito à diversidade. Menos maracutaias e mais transparência. Menos autocracia e mais democracia.

Miremos nosso empenho na conquista de uma sociedade que espelhe a proposta do profeta Isaías, onde o lobo e o cordeiro, que são diferentes, não façam da diferença divergência, e possam conviver em harmonia e igualdade de condições. No lugar de olhar para os lados quando se procura combater privilégios, uma verdadeira revolução olha para cima. Ou seja, ela luta exatamente contra aqueles que este governo mais gosta de defender: os banqueiros com seus lucros inacreditáveis para uma economia paralisada, os empresários que ganham carta branca para espoliar trabalhadores, os rentistas que tem seus rendimentos intocados, mesmo em meio a crises econômicas. 

Há cem anos, Mário de Andrade (1893-1945) expressava sua indignação diante dos endinheirados gananciosos, mesquinhos e usurpadores. Ao lado dos empobrecidos, o poeta brada em Ode ao burguês: “Eu insulto o burguês-funesto! /O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições! /Fora os que algarismam os amanhãs! /Olha a vida dos nossos setembros! /Fará Sol? Choverá? Arlequinal! /Mas à chuva dos rosais/O êxtase fará sempre Sol!” (Pauliceia Desvairada, 1922).

Marcos Fabrício Lopes da Silva

Marcos Fabrício Lopes da Silva

Professor universitário. Jornalista, formado pelo UniCEUB. Poeta. Doutor e mestre em Estudos Literários pela UFMG.

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