A Patologia do Suposto Conhecimento – Por Marlon Nunes – #temporadadetextos

Imagem: Pixabay
Marlon Nunes

Essa aproximação acontece pela aquisição dos produtos adaptados pela indústria cultural. A cada sessão de cinema, por exemplo, o ego do indivíduo narcisista contemporâneo aparenta ser fortalecido. Mas, ao contrário, ao adquirir um ingresso de cinema e, assim, sustentar a sua insuficiência, o sujeito não fortalece o seu Eu, mas o enfraquece num processo de identificação com o próprio objeto de compra ou a mercadoria, nesse caso, o filme assistido. É essa identificação com o opressor que prende o oprimido a uma única ideia de verdade aceitável. O próprio Freud, ao explicitar que o progresso cultural representa a perda de felicidade e acentua o sentimento de culpa, salienta que um dos pecados da educação é não preparar os jovens para a agressividade do mundo.

 O indivíduo deve aproveitar seu fastio universal como uma força instintiva para se abandonar ao poder coletivo de que está enfastiado. Mesmo na ciência, os conceitos são alienantes e insistir neles sem negá-los é sofrer da patologia do conhecimento. Quem absolutiza, ingenuamente, está doente e se faz presa fácil para o poder espetacular da falsa imediatidade fetichista das mercadorias. A filosofia para ser filosofia e não a mera reiteração do que existe, tem que acordar de seu sono idealista com base em sua independência das coisas como elas são. Negar a positividade da dialética tradicional é buscar uma renovação da vontade filosófica que está sendo destituída como força através da planificação da linguagem, uma tentativa de revisão da Revolução Copernicana na Filosofia.

            Bem da ciência psicológica enquanto uma ciência objetivante, nas mãos da qual a vida psíquica por ela descoberta se transforma em uma coisa entre coisas. A apologia desse conhecimento positivo tradicional torna-se não liberdade resultando em neuroses compulsivas devido ao fato de tudo querer controlar. Assemelhando-se ao objeto, o sujeito projeta-se na sua eliminação através da sua tentativa de autopreservação.

A cultura que não é cultura alguma não quer por si mesma outra coisa senão que aqueles que caem em seu moinho sejam cultivados. Superar esse estado reificante, nos seus próprios moldes, pode se estabelecer como mais uma instância narcísica, pois, o represamento da adaptação na hegemonia dos meios regulados no fim da racionalização em sínteses forma a pseudo racionalidade carecida de conceitos e da negação dos mesmos. Daí a consequente importância de negar o modelo ficcional de liberdade idealista.

A autorreflexão na dialética negativa não pode se transformar em posição totalizadora. Ao contrário disso, é um método que auxilia a pensar o conceitual cristalizado da tradição filosófica. A dialética negativa seria também a autoconsciência da objetividade do sistema, diante da perda temporária da capacidade sensorial e intelectual à qual o sistema de pensamento tradicional nos impõe. A dialética não precisa ser de maneira hegeliana a força do adversário absorvida e voltada contra o próprio adversário. A dialética negativa não pode aquietar-se em si como o todo, e sim procurar dissipar a coerção da identidade ao questionar a perpetuação de um estado não emancipatório procurando diminuir o abismo entre o conceito e a coisa, ou ainda, entre o sujeito e o objeto.

A indústria cultural tornou-se o grande elemento educacional das massas, direciona os indivíduos para o consumo e consolida, em várias escalas, a percepção unilateral e não dialética do entendimento do todo. Justifica-se pois a necessidade de continuação das investigações sobre o narcisismo coletivo que se mescla aos objetivos da indústria cultural compreendendo a necessidade de satisfação da suposta autoridade (do sujeito) nela mesma como semicultura.


Marlon Nunes é professor mestre em Estudos de Linguagens, escritor e psicanalista em Contagem-MG. Possui dois livros publicados: “A solidariedade vai até onde vai o interesse” e “O corpo hiper-real em Crash e a festa tecnológica: sedução, simulação e fragmentação”.


SE VOCÊ GOSTOU DESSE TEXTO INTERAJA COMENTANDO NAS REDES SOCIAIS DO AUTOR OU LOGO ABAIXO NESSE SITE.

PARA LER MAIS UM TEXTO DESSA TEMPORADA CLIQUE NO LINK ABAIXO:

Poeme-se, revolucione-se, livros transformam mentes – Por Isa de Oliveira – #temporadadetextos