A PANDEMIA SÓ EVIDENCIA A URGÊNCIA DA REVOLUÇÃO – Por Marlon Nunes – #temporadadetextos

Fonte: GoodFon
Marlon Nunes

 1ª PARTE

Esse é o meu segundo texto para o projeto Temporada de textos aqui do Portal Nova Contagem, e, novamente levanto questões que se ligam à pandemia. Parece um clichê oportunista me aproveitar das hashtags (#) do assunto do momento, mas, durante a leitura, creio que perceberão que o tema, tratado aqui em poucas palavras, é fundamental e não passa de mais uma tentativa (frustrada) de salvar uma causa que, particularmente, considero perdida: a emancipação da classe trabalhadora. Por quê digo perdida? Devido ao nível de domínio das simulações exercidas pela linguagem dos meios de comunicação e de toda a estrutura que compreende o modo de produção capitalista informacional, que, na realidade, deve ser denominado “enformacional”, de enformar o cidadão, enquadrar, colocar na forma adequada.  

No primeiro texto, abordei questões e conceitos mais duros e criteriosos, que exigem a pesquisa prévia e que ressoam o descrédito ao que acontecerá diante os fatos da pandemia: o nada. Meu negativismo filosófico não vai de encontro com a minha positividade sobre os aspectos da vida. Portanto, não é porque nada mudará que não devemos realizar transformações, sejam elas individuais ou sociais. Por isso, mesmo que, teórica ou praticamente, é preciso falar e fazer revoluções. É preciso revolucionar. Como? Deixando de sermos inorgânicos e tornando-nos mais orgânicos. Deixando de sermos engrenagens de uma maquinaria que nos envolve em toda a nossa historicidade, nossos sentimentos e nossas percepções de mundo. Tornando-nos mais animais, mais selvagens, pois já faz tempo que o termo humano não significa nenhum estado de melhoria, seja individual ou social. Ao contrário disso, ele representa muito bem todos os sinais de depreciação, do não enaltecimento do ser e do existir. É a representatividade da destruição do que, por mais lisonjeiro, ultimamente poderíamos considerar humano. É preciso fugir dessa terminologia com rispidez e pressa. É preciso outro de tipo de razão.

Equipamentos Eletrônicos

Já me explicando, o que eu quis dizer no primeiro texto foi que tudo continuará da mesma maneira ou piorará após a pandemia. Não aprenderemos nada com o tamanho desgaste e aprisionamento. Não mudaremos a arrogância, a soberbas e a violência. Nada mudará se não revolucionarmos a maneira de pensar e lidar com os fenômenos da vida em si. Nas linhas que seguem, compartilho um pouco do meu sentimento sem rodeios e palavras rebuscadas das hipocrisias e domínios acadêmicos. Mesmo porquê, a escola e a academia científico-filosófica não estão diametralmente separadas das instâncias de reprodução da dominação à qual me refiro. Tornaram-se também indústrias.

Lá, os egos estão cheios de si e, querendo ou não, refletem às padronizações da ABNT e/ou Vancouver. As cadeiras são enfileiradas numa uniformização do corpo. É proibido levantar. Lá, educa-se a ser submisso. Lá, ensina-se a respeitar a ordem do discurso. Lá, aprende-se a pisar no menor e menos favorecido. É proibido rebelar-se contra a reprodutibilidade da opressão. É preciso fazer mais do mesmo. Enfim, é proibido pensar. Na verdade não é o pensar que dói como o exposto nas rodas de conversas. É o não-poder pensar que destrói a potência de qualquer possibilidade que não seja a mesmice acadêmica europeizada.

Vivemos no modo de produção capitalista, mas antes de capitalista (extremamente) técnico, ou seja, credita-se à tecnologia a salvação para todos os nossos problemas na própria ciência, no rádio, na televisão, no cinema ou na apropriação de qualquer promoção consumista. Nas prateleiras dos supermercados abarrotados de enlatados e agrotóxicos. Afinal a “Agro é tech, agro é pop, agro é tudo”.

Claro que, não inocentemente afirmo isso. Há sim de se reconhecer os desenvolvimentos da ciência e o que ela nos trouxe de benefícios. Entretanto, essa perspectiva é uma via de mão dupla: Chegamos ao ponto de vivermos literalmente o fetiche, a magia, da técnica. Em meio à sedução tecnológica, ou deixamos de lado ou não conseguimos sair dessa forma de existir. Vocês devem estar se perguntando: o que isso tem a ver com a pandemia?

A primeira resposta é que a própria ciência (técnica) não dá conta ou tem respostas imediatas para sanar as várias demandas, como se imagina, que nos surgem. É preciso tempo para o desenvolvimento das pesquisas e, principalmente, investimentos econômicos. Mas, no Brasil, o desenvolvimento das pesquisas é mais que prejudicado e atrasado devido aos precários investimentos em infraestrutura. Fato que reflete (ainda) a nossa antiga condição de colônia em novas formas de dominação sob as determinações do capital internacional. Resumida, simples e objetivamente, o que quero dizer é que somos neocolonizados. A segunda e primordial retórica é que não devemos relativizar a emergência em revermos a nossa condição de neocolonizados que, dentro do patamar técnico, é, antes de tudo, ideológica. Somos catequizados para crermos que “o trabalho salva”, “o trabalho dignifica”. Tudo bem, até concordo com essas afirmações. Contudo, a questão central é: a quem o trabalho salva, a quem ele dignifica?

Vivemos para além da distopia pandêmica, momentos de governança que repudiam o trabalho do proletariado. As propagandas de “fique em casa” servem para quem? Atores novelísticos aparecem diariamente em nossas casas com o discurso de que é preciso nos salvarmos (eles em suas mansões e nós nas ruas e escolas ou enfurnados em nossos barracos). Médicos famosos, em posições no mínimo contraditórias, exibem-se nas telas com a ordem de nos mantermos em casa, mas, logo depois, aparecem pedindo para sermos voluntários nas eleições, pois, segundo os fáusticos reverendos da medicina, “medidas de proteção estão sendo tomadas para tal”. Aparenta-nos uma medida, no mínimo, neomalthusiana de controle populacional. Mata-se ou deixa-se morrer uma quantidade razoável da população para que o capital continue com seus lucros exponencialmente geométricos estruturados sobre a força de trabalho do proletariado.

Face a isso, outra pergunta nos surge: o voto adianta de quê ou para quem? Há décadas o que vemos é a apropriação da produção, não só pelos donos dos meios de produção, mas também pela classe política que, quase generalizadamente, é corrompida. O que vemos é um reformismo mascarado de mudanças na suposta esquerda e, quando não, a expropriação total realizada pela direita do mínimo de emancipação conquistada pelos trabalhadores: do pequeno agricultor, passando pelos motoboys até os professores e enfermeiros e demais linhas de frente que mantêm o país e a superestrutura do capital.

A ideia implantada de que o brasileiro é cordial cai por terra quando vemos os “aviõezinhos” do tráfico se matando com armas de fogo. Pobre contra pobre, num individualismo ideológico que é prático e sem limites. Com isso, não quero ser idealista, e sim, materialista, de maneira que saibamos identificar que quem produz objetivamente o sistema, quem realmente mantem os sistemas produtivos, hoje, mais integrado e globalizado, em termos econômicos os, já citados, trabalhadores da base. É preciso perder as amarras. Novamente nos perguntamos: e a falta de condições? E o desemprego? E a fome? Pois, eles estão aí há gerações e provavelmente não acabarão enquanto o proletariado não tomar as rédeas da produção e assumir a nossa consciência de classe trabalhadora. É preciso, ao menos, termos coragem de falar sobre as opressões e repressões para não nos matarmos enquanto mesma classe.

Para quem não estudou ou não se lembra, as transformações da classe burguesa na Europa transicional do medievo para a modernidade não realizaram-se com flores e água benta. A burguesia, classe oprimida na época, entre acordos e desacordos, fez-se armada para conquistar o poder e sua tão aclamada liberdade e fraternidade, desde sempre, serve somente aos seus interesses. Peguemos como exemplo o Artigo Terceiro da Constituição Brasileira:

Art. 3º Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil:

I – construir uma sociedade livre, justa e solidária;

II – garantir o desenvolvimento nacional;

III – erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais;

IV – promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.

De acordo inclusive com a Constituição Brasileira, é necessário garantir e exercer a cidadania de acordo com o Artigo Terceiro. E isso não significa, de maneira alguma, ser comunista. Mesmo porque o termo comunista deriva de comum, e assim, mais uma vez, os comunistas, de acordo com Artigo Terceiro, também não podem ser discriminados. Ser comunista não é de maneira alguma estar errado. Estar à esquerda do Pai também não é errado. O domínio é tão ideológico que a própria Lei se torna simulação. Faz parecer real o que denominamos democracia. Supostamente os sistemas democráticos seriam os governos em que o povo exerce a soberania. Mas, ao contrário disso, enfurnados na ideologia da representação, deixamos nossos interesses de classe trabalhadora a par dos supostos “representantes”. Será mesmo que eles representam os interesses do povo, ou estão “culiados” com os interesses da classe dominante e assim tornam-se opressores também? Qual a real função das tantas propagandas sobre a obrigatoriedade do voto? Não seria mais uma maneira de nos mantermos calados na representatividade? Não seria mais uma “enformação”, isto é, nos mantermos presos à, já velha, máxima individualista? Acredito que todos temos respostas para tais questionamentos. Por essas e outras, mesmo que eu mesmo não acredite mais (totalmente) numa revolução, afirmo a urgência da união do proletariado contra todos os desmandos dos donos dos meios de produção e de quem, de uma maneira ou de outra, os representa.

Para além de uma revolução proletária apenas econômica, é preciso uma revolução do pensamento proletário que entenda ao domínio e ao fetiche da técnica, da mercadoria, da marca, das redes sociais e toda a superestrutura na qual está envolta o todo social. Uma compreensão da participação do trabalhador como não-máquina, mas como senhor de sua subjetividade. Dono de sua produção/pensamento no enfrentamento ao sistema que faz da sua energia, do seu corpo apenas exploração. A ressignificação do trabalho já é uma revolução.

Post scriptum: Esse texto foi dividido em duas partes. Na segunda parte que, será postada na próxima semana, continuo tratando das transformações individuais e sociais. É preciso perceber que o corpo não é uma bateria (pilha) para sustentar a sistemática maquinaria.


Marlon Nunes é professor mestre em Estudos de Linguagens, escritor e psicanalista em Contagem-MG. Possui dois livros publicados: “A solidariedade vai até onde vai o interesse” e “O corpo hiper-real em Crash e a festa tecnológica: sedução, simulação e fragmentação”.

 

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