A PANDEMIA SÓ EVIDENCIA A URGÊNCIA DA REVOLUÇÃO-PARTE 2 -Por Marlon Nunes – #temporadadetextos

É NECESSÁRIA TAMBÉM A REVOLUÇÃO INDIVIDUAL PENSANDO A DEUSA TÉCNICA

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Marlon Nunes

Continuando a explanação sobre a dominação técnica, é preciso evidenciar o termo cunhado pelos pensadores alemães Theodor Adorno e Max Horkheimer: indústria cultural. Com esse conceito os filósofos demonstraram, há décadas, a nossa impotência diante dos produtos dos meios de comunicação e como todo o desenvolvimento da razão instrumental culminou no fetiche da técnica. Nesse sentido, para Friedrich Nietzsche o desenvolvimento da razão ocidental não passa de um grande aprofundamento e para Martin Heidegger não aprendemos a pensar. Tanto os dois primeiros quanto os dois últimos construíram narrativas que criticam os resultados da cultura/teoria tradicional. Como já dito na primeira parte, publicada na semana passada, essas afirmações contribuem para verificarmos que o ser humano, em sua falta de defesas macrobiológicas, sustentou a sua existência a partir das ferramentas que eram utilizadas, em primeiros tempos, para matar seus predadores ou para a caça e, em momentos posteriores, também para o cultivo.

Na Dialética do Esclarecimento, obra cara a Adorno e Horkheimer, a partir do conceito de indústria cultural, esses autores levantam questões sobre a técnica e a sua influência nos sentidos dos seres humanos, por exemplo, na leitura da Odisseia de Homero, obra que tem origem na tradição oral da época micênica cantada pelos aedos, tendo sido fixada por escrito, provavelmente no fim do século VIII a.C. Na Odisseia, o personagem principal, Odisseu, utiliza da razão técnica para negar a natureza, por exemplo, na famosa alegoria na qual ele pede para os seus companheiros de guerra taparem os seus ouvidos com cera para que ele ouça o canto das sereias, mas não seja atraído por elas. Ou quando ele mente para o Ciclope afirmando que o seu nome é Oudeis (nada). Para não me estender muito, cito como outro exemplo, dentre vários, o livro 2001, Uma Odisseia no Espaço, de Arthur Clarke, e o filme homônimo de ‎Stanley Kubrick, que demonstra a influência da técnica, inicialmente, na cena em que uma placa de metal (símbolo da técnica) aparece do nada e um dos macacos utiliza o fêmur de outro animal morto para quebrar um crânio. Não darei mais spoiler… Leiam ou vejam.

Esses são dois exemplos de alegorias que demonstram sem rodeios a necessidade do animal humano de ser técnico. É preciso salientar que, quando afirmo técnica, quero dizer algo fora do corpo orgânico que contribui ou contribuiu com a vida dos seres humanos devido a falta de veneno ou de garras. Nessa necessidade do animal humano recém-nascido receber técnicas dos adultos, com o passar do tempo, criou-se a cultura não só da dependência técnica, mas também a do fetiche da técnica. Hoje em dia, para os menos desavisados, não é tão difícil identificar essa condição nos controles remotos, nas câmeras de vigilância, nos carros automáticos, nos medicamentos que agem na consequência e não na causa. É preciso vigiar as nossas ações reativa e relativamente à técnica, caso ainda queiramos mudar algo, nem que seja a própria individualidade.

Nesse contexto de pensar a mudança no fetiche da técnica, pergunto-me:  e Deus… Seria Deus orgânico ou inorgânico? Ou seja, seria ele uma máquina, um robô nos moldes dos Transformers? Ou virtual como os agentes da Matrix? Nós, como corpo (não divido corpo de mente), estaríamos negando a própria existência em prol de outro mundo o qual não sabemos da real existência dele e assim, a cada instante, mais binarizados, perdemos os dois mundos: o de cá e o de lá, o sensível e o inteligível. Ou Deus somos nós mesmos em corpo? Mas se o nosso imaginário está dominado pela técnica e somos a imagem e semelhança de Deus, seria ele um Ser tecnológico? Penso também que, numa outra hipótese, em espírito (energia), o que não deixa de ser orgânico, Deus estaria “P da vida” com todo o patamar de destruição técnica realizado por nós HUMANÓIDES.

Hoje, mais que nunca, Deus aparenta-me ser mais uma questão de conveniência. Quer dizer: preciso salvar a minha alma, não quero queimar no fogo do inferno. Deus seria uma forma solidária de interesse. Quer dizer: serei solidário e salvar-me-ei das atribulações pós-vida. Há nessas perspectivas um ódio, ou mínimo, uma insustentabilidade da nossa própria maneira de existir. Para mudarmos algo seria preciso outra imagem de Deus. Seria preciso outra razão. Não quero dizer com isso que é proibido acreditar em Deus. Acredite quem quer, creia quem é melhor aconselhado, pelos pastores, mas tudo bem… Creia! Clame! Mas viva. E viva o melhor que puder. Não culpe-se pelas maldições do mundo.

No sentido da Revolução, é preciso que tomemos conta de nossos corpos. A indústria nos fornece um extraterrestre, o Superman, com as cores Yankees (norte-americanas) como a salvação do planeta. Ou a história de um frágil jovem, Steve Rogers, que é transformado, tecnicamente, por um cientista, no Capitão América, também com as cores dos Estados Unidos da América. Agora a aberração não é feia, desengonçada e composta por partes de cadáveres como o Frankenstein. Agora a aberração, tecnologicamente fáustica, é exposta nas telas do cinema, após as HQs, com o corpo perfeito e industrializado das academias e da moda. E, nós, mais uma vez, somos presenteados pelo fetiche da técnica.

Aquela nação utiliza o discurso de levar o livre-arbítrio de Deus para o restante do mundo como se a verdade deles fosse a do restante. O livre-arbítrio deles vem acompanhado de Golpes de Estado políticos e, quando não são Golpes políticos, como no Brasil (A República dos Bananas não precisa de bombas) eles levam sem o menor pudor e com o maior teor perverso: bombardeios, tanques, armas químicas e nucleares. Que Deus é esse, o norte-americano?

Aqui no Brasil o que vemos, outra vez, é o Complexo de Vira-Latas descrito por Nelson Rodrigues quando da perda da Seleção Brasileira de Futebol para o Uruguai na Copa de 1950 realizada em terras tupiniquins. Nas palavras de Nelson Rodrigues, somos narcisos ao contrário e não temos nenhum senso de autoestima, na verdade, interpreto que não temos sequer algum tipo de estima. Somos um povo desgraçado. Felizes demais por natureza sofremos do extremismo carnavalesco. Somos facilmente absorvidos por quaisquer aspectos da indústria cultural. Olha que legal: sambamos… E somos sambados. E não se esqueçam: tudo isso com a Ordem e o Progresso positivista implantados pela cultura europeia e depois norte-americana. A nossa situação é vergonhosa. Os nossos revolucionários batem tambores e realizam sarau de poesia em praças. Juntam uma galera e tomam banho nas imundas praças. Essa é a esquerda: festiva e tilelê.

O espírito em si está destruído. A indústria das religiões, seitas e alternatividades é ainda mais intensa que antes… Da Yoga à indústria da Ayahuasca, da indústria tântrica à indústria dos espiritismos fajutos e nada baratos, os quais a classe média medíocre (aqui é preciso ser redundante) sustenta… A indústria dos patologicamente narcisistas. Afirmo que não sou contra qualquer tipo de procura ou necessidade de cura. A questão sempre é: não façam delas mais um aspecto técnico. Perdidos entre os seus desejos mais doentios de perversão de tudo o que ainda vale a pena e as aberturas que essas indústrias lhes dão para todos os tipos de abuso. Em nome do João de Deus ou da pastora deputada Flordelis. Ou ainda, em nome da não tributação a templos religiosos. Amém! Ou ainda do messianismo da indústria do alcoolismo e a indústria das drogas, sejam elas lícitas ou não. Contra tudo isso só a selvageria salva. Só o terrorismo salva. Eu sou um terrorista da linguagem.

A classe média não tem salvação. Morrerá doente com a sua suposta liberdade econômico-sexual. Que desçamos das favelas em ritmo funk com os Kalashnikov numa guerra contra toda a podridão opressora burguesa. Os demônios descem do norte e instalam-se aqui a séculos. É preciso exorcizar esses demônios que nos perseguem cotidianamente e demonstrar toda a nossa potência. Revolucionários não devem render-se para a indústria, para a técnica, mesmo tendo que conviver com ela. Há de se ter uma revolução para além de social. Há de se ter a revolução da subjetividade. Mesmo os seres humanos sendo ambiguamente técnicos por natureza é preciso resistir ao máximo às seduções da indústria/cultura. Necessitamos das próteses. Prometeu roubou o fogo de Zeus e nos deu… Fausto e Frankenstein pioraram as coisas e agora todos somos, literalmente, perseguidos pelo demônio da técnica, despedaçados… A ficção nos educou muito bem! É preciso preocupar-se, mais que nunca, com o fetiche da técnica.


Marlon Nunes é professor mestre em Estudos de Linguagens, escritor e psicanalista em Contagem-MG. Possui dois livros publicados: “A solidariedade vai até onde vai o interesse” e “O corpo hiper-real em Crash e a festa tecnológica: sedução, simulação e fragmentação”.


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