À mala, com alça



Não era ela que eu estava procurando. Estava no meio de uma faxina geral, a décima primeira ou décima segunda desta interminável quarentena. Mas, de repente, ela me descobriu quando cutuquei o fundo de uma prateleira alta do armário.

Quando foi mesmo a última vez que nos encontramos? Janeiro, certo, mas já não tenho certeza da data, talvez 12 ou 13. Chegamos juntos de mais uma viagem e nem sequer podíamos imaginar que seria a última desse gênero que faríamos em 2020.

Lembro-me de abri-la com displicência, surpreendendo-me como se fosse a primeira vez com aquele friozinho em seu conteúdo, típico de quem passou quase 12 horas num compartimento não climatizado a uma altitude de cruzeiro de mais de 10 mil metros -e sem pressurização!

Não trazíamos nada de especial daquela vez, já que, reforço, a viagem não tinha nem de longe um tom de despedida. Alguns presentes de Natal que tinha ganho de amigos de Paris, de onde havia vindo. Certamente o catálogo da disputadíssima exposição de Leonardo da Vinci, no Louvre. Um bom par de tabletes do chocolate amargo de Alain Ducasse.

De resto, roupas sujas e dois ou três livros de culinária que eu sempre me dou de presente na virada do ano. Pronto! Vazia, expondo seus contornos cavernosos, ela estava pronta para voltar à escuridão da prateleira, certa de que em questão de semanas seria novamente procurada para um passeio.

Meses se passariam até que eu a tocasse novamente. Onze, para ser exato. E que coisa estranha foi ter nas minhas mãos seu peso oco, sua textura maltratada, sua forma disforme.

Pensar que um dia ela já foi nova, exalando, quando seu zíper se abria, o equivalente àquele “cheiro de carro novo” no que se refere às lembranças de viagem. Sua estreia foi na volta ao mundo de 2004. E que estreia!

Seu conteúdo fixo por mais de quatro meses foi uma muda de roupa para cada dia da semana, incluindo roupas íntimas, mais um casaco de lã e um moletom. Os suvenires que trouxe dessa jornada, justamente por uma questão de espaço, tinham de ser pequenos ou chatos, como um tecido ou uma camiseta.

Até que nos saímos bem nessa aventura. Depois dessa convivência tão íntima, achei que não nos veríamos por um tempo. Mas levei mais de ano para comprar uma nova e começar um rodízio.

Se bem que a cada volta ao mundo -e foram mais três depois daquela primeira- eu retornava para ela. Não sou muito agarrado a essas coisas, não, mas tinha uma certa nostalgia envolvida, sei lá. Talvez até um pouco de superstição.
Leia mais (12/09/2020 – 23h15)

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