A Indústria Cultural e a Semiformação dos Indivíduos – Por Marlon Nunes – #temporadadetextos

Fonte: PXHERE.COM

O modo de produção capitalista renegou aos trabalhadores os

Marlon Nunes

pressupostos para a formação, inclusive, o mais importante: o ócio. Tornamo-nos todos homens de negócio, ou seja, negamos o ócio e assim carregamos o fardo de trabalhos sem nenhum sentido. Numa espécie de junção da mais-valia absoluta com a mais-valia relativa, o denominador comum, cultura, virtualmente introduzido no domínio da administração, que subordina todos os setores da produção, ocupa assim os sentidos dos homens da entrada à saída da fábrica e, também, no suposto descanso no entretenimento.

A semicultura dá-se então quando os aspectos tradicionais locais da vida do indivíduo são invadidos autoritariamente por programas dos meios de comunicação numa suposta democratização da informação. O que ocorre é a mediação reificada do sujeito com a totalidade da indústria cultural, o particular refletindo o universal, resultando na elevação de um eu ilusório e cindido, ou seja, semiculturalmente formado e, à vista disso, coletivamente narcisista. Por conta desse movimento o poder produtivo das sociedades capitalistas tardias vem se desenhando imaginariamente como um funil: o esclarecimento é totalitário como qualquer outro sistema.

Logo, todas as esferas da vida vem se globalizando na compressão de um só sistema de linguagem: o técnico. Esse sistema de entendimento do mundo integraria suas relações de signo e símbolos exercendo um tipo de reversão ou regressão do esclarecimento à ideologia, e, encontraria nos meios de comunicação o seu mecanismo de influência mais perspicaz, direcionando a razão como funcionalidade, absorvendo quaisquer possibilidades de linguagem que não faça parte dessa lógica.

A sociedade parece ter esgotado por todos os cantos o seu estoque de ideias construtivas. A crise política do modo de produção capitalista reflete uma crise generalizada da cultura ocidental representada pelo desespero em compreender o curso da história moderna. Estaríamos, ao contrário de Odisseu, com os ouvidos tapados e os olhos embaçados pelas adaptações. Agora não adquirimos o conhecimento técnico, a exemplo do personagem homérico, mas, dominados satisfazemos todas as suas vontades. Um último resquício da autonomia temática, entra em conflito com a política comercial da igreja ou da corporação que produz a mercadoria cultural.

Tudo isso atrai sobre si o desejo de destruição dos civilizados que jamais puderam realizar totalmente o doloroso processo civilizatório. A esse espectro de funcionalidade totalizadora, estaria ligado, dialeticamente, o processo de formação dos indivíduos. O dever que eventualmente tenta se esgueirar do controle do todo já é reprimido pela própria consciência individual intrínseca processo de enformação, pois, é implantado o falso espírito da democratização que faz-nos espectadores passivos do sistema. O universal metamorfosea o particular tanto quanto o particular comuta o universal.

A informação cultural disfarçada de gosto artístico se desnuda como destruição. As adaptações ou novas formas de composição das obras de arte e, mais tarde, da publicidade refletem justamente a adequação do indivíduo ao que lhe é exposto, concorrendo ideologicamente de maneira ininteligível e sendo muito bem apropriado pela indústria cultural como forma de usufruir da necessidade narcisista dos indivíduos de se verem completados.

O átimo subjetivo do social presente nas cópias, como objetivação coisificada, seria decifrado na Dialética do Esclarecimento como semiformação, pois: Somos obrigados a passar pelo crivo da indústria cultural. A vida não distingue-se do filme. A repentina introdução da reprodutibilidade técnica nos aspectos da vida, simulando a participação do sujeito, pertenceria ao construto da semiformação; o desmembramento causal da história dialética do pensamento como fonte da prática reprodutivamente reificadora.

Diante dos aparelhos repressivos dos Estados autoritários, os pequenos grupos dignos de admiração possuem muito pouco tempo para aprimorar a teoria. Os oportunistas lucram com o curto tempo e o estado intelectual das massas retarda-se velozmente. Precisamente o mercado pode ser visto como um grande Estado totalitário que impõe suas delimitações sobre as subjetividades, enquadrando-as psicologicamente. Digamos então que as adaptações como violenta invasão (totalitária) do/no processo formativo, constitui um vácuo na formação dos indivíduos, o qual, provavelmente, será preenchido ilusoriamente pelos próprios produtos da indústria cultural-adaptativa.

As sinfonias são transformadas com a desculpa de as tornarem mais acessíveis- populares. Esses processos são vistos como invasão na formação das subjetividades, o que caracteriza um tipo de atentado à percepção; barbáries que tiram a oportunidade do indivíduo de se formar ao seu tempo, consequentemente, o que ocorre é a constituição de indivíduos semiformados. Expressão de um sujeito gerador dos sistemas da própria semiformação, pois, os pensamentos e comportamentos é que sofrem um tipo de repressão do conteúdo recalcado na própria cultura local.

A integração dos indivíduos às leis do mercado concatena com o universo de consciências progressivamente dissociadas, então eles são submetidos à manipulação do gosto que poderiam ter sobre os aspectos culturais. É justamente o processo de condicionamento às mercadorias que os satura como pensamento-imagem e os impede de emancipar-se diante de si e do todo o imposto. Contudo, a única possibilidade de sobrevivência restante à cultura é a autorreflexão crítica sobre a semiformação em que se transformou. Em analogia ao conceito de repetição freudiano afirmamos que a consistência da repetição da indústria cultural faz com que os indivíduos também se repitam nesse universo perverso e continuem reprimidos, inconscientes e obviamente, obrigatoriamente repetitivos, ou ainda, em termos marxistas, alienados.


Marlon Nunes é professor mestre em Estudos de Linguagens, escritor e psicanalista em Contagem-MG. Possui dois livros publicados: “A solidariedade vai até onde vai o interesse” e “O corpo hiper-real em Crash e a festa tecnológica: sedução, simulação e fragmentação”.


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