A IMIGRAÇÃO E O ESTREITAMENTO DAS RELAÇÕES DIPLOMÁTICAS ENTRE BRASIL E HAITI – PARTE 2 – Por Marlon Nunes – #temporadadetextos

Pense no Haiti, reze pelo... O Haiti é aqui O Haiti não é aqui (Caetano Veloso)

Fonte: Pixabay

       Partindo dessas observações o objetivo do artigo é relatar algumas

Marlon Nunes

das condições de migração dos haitianos de sua Terra Natal para o Brasil. Em sua maioria, as fontes indicam que os trajetos e os lugares de chegada, são quase sempre os mesmos e constituem alguns municípios da região Norte do Estado brasileiro. Não havendo a necessidade de tornarmo-nos redundantes, tomamos como base principal para esse relato, o documento: Estudos sobre a Migração Haitiana ao Brasil e Diálogo Bilateral (2014)[1], produzido pelos professores/pesquisadores, Duval Fernandes e Maria da Consolação G. de Castro, com o auxílio das bolsistas, Bruna Beatriz Pimenta, Paula Guedes, Taís de Fátima Xavier, Vanessa do Carmo; em parceria com os seguintes Instituições: Centro Zanmi (Belo Horizonte), Instituto Migrações e Direitos Humanos (Brasília), Núcleo de Estudos de População Elza Berquó – UNICAMP (Campinas), Pastoral do Migrante (Curitiba&Manaus), Centro de Estudos da Metrópole – CEM (São Paulo) e Fundação Universidade Federal de Rondônia – Unir (Porto Velho). Essa produção ainda contou com o financiamento do Ministério do Trabalho e Emprego, da Organização Internacional para a Migração (OIM), da PUC Minas e do Grupo de Estudos Distribuição Espacial da População (GEDEP).

     A pesquisa citada utilizou metodologia quanti-qualitativa. Num primeiro momento era preciso recolher, analisar e descrever os dados imigratórios, justamente para se chegar à situação com menor distorção possível. Por isso, a necessidade da racionalização do fenômeno a partir da quantificação de características do objeto em estudo, no caso a imigração de haitianos para o Brasil. Richardson (1989) afirma que a abordagem quantitativa traduz para números através de contagem e mensuração um fenômeno, ou seja, o quantifica tanto nas modalidades de coleta de informações quanto no tratamento destas por meio de técnicas estatísticas. Já a pesquisa qualitativa de acordo com Maanen (1979) traduz e expressa o sentido dos fenômenos do mundo social; reduz a distância entre “[…] indicador e indicado, entre teoria e prática, entre contexto e ação” (MAANEN, 1979, p. 520), ou ainda entre pesquisador e objeto pesquisado.

     Segundo Minayo (1994), as relações entre as abordagens qualitativas e quantitativas demonstram que as duas metodologias não são incompatíveis e podem ser integradas num mesmo estudo. Uma pesquisa quantitativa conduz o investigador ao recorte do problema em suas particularidades para ser analisado em toda a sua magnitude, por meio de métodos e técnicas qualitativas e vice-versa. Essas condições contribuem para uma melhor investigação, incorporando ao reconhecimento dos fenômenos, as suas especificidades, simbologias e linguagens.

     Fernandes e Patarra (2011, p. 66-90) no artigo Brasil: país de imigração? Discutem a relevância do Brasil como país receptor de imigrantes por conta da sua posição “emergente” junto à economia mundial e o aumento da circulação de pessoas devido ao processo de globalização. Passando pelo tratamento dispensado aos refugiados pelas instituições brasileiras, ao mito do Brasil como país de imigrantes, até à xenofobia, esses autores levantam questões preponderantes sobre os processos imigratórios brasileiros, dispensando maior atenção à imigração haitiana na última parte do artigo, justamente, por essa ser a mais recente e pelo fato do Brasil, há décadas, até então, não ter feito parte das rotas migratórias internacionais.

     Partindo dessas premissas, a questão migratória haitiana, torna-se problema de cunho científico para os pesquisadores brasileiros devido à vinda dos caribenhos para o Brasil e ao emaranhado de relações desenvolvidas nesse processo, por exemplo, as contradições entre o discurso governamental e as condições de vida desses imigrantes. Ao passo que a imprensa/mídia e o governo afirmam apoio aos refugiados haitianos, em sua totalidade, o fenômeno não é exposto o quanto deveria, logo, as atribulações ocorridas com os haitianos ficam às escuras. Assim, a função da pesquisa (que ainda caminha) é identificar os pontos problema através de dados e entrevistas para tentar resolvê-los ou amenizá-los. Essa questão já não é uma hipótese apenas, mas um acontecimento.

 

     “As migrações são sempre historicamente condicionadas” (SINGER, 1976, p. 217). As principais causas temporais para a expulsão dos haitianos de seu país são: a crise política e socioeconômica no início da década de 2010, culminada na deposição do então presidente Jean-Bertrand Aristide; fato que resultou na intervenção internacional naquele território através da Missão de Estabilização das Nações Unidas no Haiti – MINUSTAH em 2004 (liderada pelo Brasil); o surto da bactéria Vibrio cholerae, a Cólera, em 2012; os dois furacões que afetaram o país, Isaac e Sandy, também em 2012; a histórica crise da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida – AIDS. Mas sem dúvida, o terremoto[2] de magnitude sísmica de 7.3 na escala Richter em 2010 foi o principal fator de relevância para a emigração dos haitianos. Dos entrevistados na pesquisa de Fernandes e Castro (2014, p. 48) apenas 1,8% dos entrevistados havia emigrado para o Brasil. Todos esses aspectos contribuindo significativamente para a diáspora haitiana.

     De acordo com Fernandes & Castro (2014, p. 11) o Banco Mundial (2011) estima que aproximadamente 10% da população do país tenham emigrado (1.009.400 pessoas), mas outras fontes indicam que a diáspora haitiana já teria ultrapassado a casa de 3.0 milhões de pessoas (HATIAN DIÁSPORA, 2011). E segundo Bernartt et al (2015, p. 112), “conforme fonte do Ministério dos Haitianos Residentes no Exterior, 4,5 milhões de haitianos estão espalhados pelo mundo, número que representa quase a metade da população do país”.


[1] Para consulta aos dados, ver a própria pesquisa: FERNANDES, Duval; CASTRO, Maria da Consolação G.; Organização Internacional para Migração (OIM). Estudos sobre a Migração Haitiana ao Brasil e Diálogo Bilateral. Fev, 2014, p. 10-131.

[2] O desastre natural que atingiu o Haiti, geologicamente era plausível devido à localização do país e o histórico de tremores nas zonas das falhas: Setentrional e Enriquillo-Platain Garden, ambas localizadas sobre a placa tectônica Caribenha. Essa placa é limítrofe às placas de Cocos e Sul-Americana e convergente à última. A hecatombe causada pelos terremotos, em um breve período de tempo, foi responsável pela morte de milhares de pessoas e pela diminuição da força produtiva do país.


Marlon Nunes é professor mestre em Estudos de Linguagens, escritor e psicanalista em Contagem-MG. Possui dois livros publicados: “A solidariedade vai até onde vai o interesse” e “O corpo hiper-real em Crash e a festa tecnológica: sedução, simulação e fragmentação”.


Compartilhe:

Comentários