A IMIGRAÇÃO E O ESTREITAMENTO DAS RELAÇÕES DIPLOMÁTICAS ENTRE BRASIL E HAITI – PARTE 1 – Por Marlon Nunes – #temporadadetextos

Fonte: Pixabay
Marlon Nunes

Define-se por Política Externa um conjunto de políticas públicas voltadas para a inserção internacional do Estado em questão (PINHEIRO; SALÓMON, 2013). Em uma interpretação tradicionalista apenas o governo nacional do Estado em questão pode ser chamado de formulador de Política Externa, porém, com as consequências do processo de globalização, o papel de formulação da Política Externa se expande para atores descentralizados, tal qual unidades federativas, representações ministeriais e sociais (PINHEIRO; SALÓMON, 2013).

A Política Externa está à mercê das mudanças no Sistema Internacional e das alterações dentro do espectro da política doméstica (PINHEIRO; SALÓMON, 2013).  Dessa forma, quando se coloca em discussão a Política Externa Brasileira é importante que se considere os cenários internacionais e nacionais do período estudado. Logo, é a partir da década de 1990, com o fim da Guerra Fria e a redemocratização do Brasil que a Política Externa Brasileira passa a se tornar mais diversa e multilateral (PECEQUILO, 2008). Apesar dessa tendência, as relações exteriores do Brasil no período de 1991 a 2000 são fortemente marcadas por relações com grandes potências, especialmente por uma intensa aproximação dos Estados Unidos (PECEQUILO, 2008).  Nesse mesmo período houve a reinserção do Brasil nas principais Organizações Internacionais, essa estratégia pode ser ligada com uma crescente ambição dos formuladores de política externa brasileiros: conseguir um assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU), para tal, o Brasil começou a se envolver mais profundamente na organização e manutenção das missões de paz (LUCENA, 2014).

Durante os anos 2000 o número de parceiros multilaterais do Brasil começou a crescer, e mais que isso, houve uma mudança no tipo de parceiro internacional que ocupava a centralidade da Política Externa brasileira: o país deixou o foco das relações com grandes potências para procurar aumentar seu leque de parceiros emergentes ou em desenvolvimento (AMORIM, 2010). Dessa forma, pode se dizer que as principais relações do Brasil com outros países deixaram de ter uma lógica vertical e passaram a se configurar como relações horizontais (PECEQUILO, 2008).

 

Por outro lado, no Haiti, a década de 1990 foi caracterizada por um período de grande instabilidade política causada principalmente pelo fim da Ditadura de François e Jean Claude Duvallier, também conhecidos como Papa Doc e Baby Doc (LUCENA, 2014). É aí que o país se torna foco das atenções da Organização das Nações Unidas (ONU), que passou a considerar a instauração de uma Missão de Paz no Haiti (LUCENA, 2014). Nesse período aproximadamente três Missões de Paz foram instauradas no Haiti, buscando trazer fim à instabilidade política e fortalecer as instituições democráticas no país (LUCENA, 2014).

O Brasil, empenhado em conquistar o assento permanente no CSNU e buscando ser advogado da democratização da instituição, passa a se envolver mais e mais nas questões de segurança internacionais (LUCENA, 2014). Nesse sentido, o Brasil se coloca como apoiador de uma intervenção no Haiti e se coloca em prontidão para chefiar uma missão de paz no país formada por contingentes latino-americanos, ao contrário das tropas norte-americanas, francesas e canadenses que compunham as missões anteriores. Dessa forma, o Brasil passa a liderar a Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti: MINUSTAH (LUCENA, 2014).

A partir de tal cenário o Brasil e o Haiti começaram a se aproximar diplomaticamente. No mesmo ano de instauração da MINUSTAH o Brasil realizou o Jogo da Paz, uma partida amistosa de futebol entre a seleção brasileira que havia ganhado o pentacampeonato mundial em 2002 e a seleção haitiana. O jogo pode ser considerado uma estratégia bem-sucedida da diplomacia cultural brasileira e marcou o começo de um período de grande influência brasileira no Haiti. A colaboração entre Brasil e Haiti foi desde a capacitação de profissionais do ramo esportivo até a criação de uma emissão de vistos humanitários para haitianos (RESENDE, 2010). Brasil também cooperou com Haiti em áreas relacionadas ao desenvolvimento socioeconômico, tal qual programas de capacitação de policiais, programas para a redução do trabalho infantil entre outros projetos que recebem o apoio de órgãos e agência da ONU (AGÊNCIA BRASILEIRA DE COOPERAÇÃO, s.d.).

Depois do terremoto acontecido em 2010 no Haiti a presença brasileira torna-se ainda mais forte no país. Isso se deu pelo envolvimento brasileiro com projetos que buscavam a reestruturação do país, tal qual o projeto de cooperação tripartite entre Brasil, Haiti e Cuba que buscava o fortalecimento da saúde pública haitiana após o terremoto (LINGER; KASTRUP; PESSOA, 2016). Esse programa de cooperação levou à construção de um hospital comunitário e de um instituto de reabilitação nas cidades da região metropolitana de Porto Príncipe (MINISTÉRIO DAS RELAÇÕES EXTERIORES, s.d.).

De 2012 para os dias atuais as relações entre Brasil e Haiti continuam a se desenvolver. De acordo com o Ministério das Relações Exteriores, os dois países ainda possuem um alto grau de proximidade, com constantes visitas de autoridades haitianas ao Brasil e vice e versa.


Marlon Nunes é professor mestre em Estudos de Linguagens, escritor e psicanalista em Contagem-MG. Possui dois livros publicados: “A solidariedade vai até onde vai o interesse” e “O corpo hiper-real em Crash e a festa tecnológica: sedução, simulação e fragmentação”.  Sua publicação mais recente é “A tecnologia nossa de cada dia” pela editora CRV www.editoracrv.com.br

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