A guerra das narrativas


A liberdade é o oxigênio da democracia. Sem ela, as nações são jogadas nos braços das ditaduras e da opressão. Mas os cidadãos desconfiam quando há má-fé ou o propósito de mascarar posicionamentos. Veja-se o que diz o governo sobre a vacina contra a Covid-19, em processo final em muitos países, com adesão em massa dos brasileiros.

Porta-vozes salientam que não será obrigatória porque no Brasil não há um tirano, e a liberdade é valor central de nossa democracia. A tese vem embalada por um viés anticientífico, desses usados por adeptos de certas religiões, que impedem crianças e idosos com doenças graves de fazer transfusão de sangue.

Por que o governo exagera na publicidade desse fato, quando se sabe que mais de 90% da população brasileira quer ser vacinada? Lembremos: antes da pandemia, crescia no país um movimento antivacina, que propiciou a volta de doenças erradicadas, como febre amarela e sarampo, como também ocorre nos Estados Unidos. Propaga-se um falso temor de que vacina provoca a doença em vez de curá-la. Aqui, nas hostes governamentais viceja uma corrente anticiência, conservadora, tentando puxar o território ao passado.

Na direção oposta aos avanços da ciência, esses grupos afirmam que a cura é simples, basta a cloroquina. É o auge de uma guerra de narrativas. E daí os jogos contrários resvalam para comportamentos, economia e política.

Entre governadores e prefeitos correm narrativas conflitantes, a que prega a retomada urgente das atividades e a que teme o repique da doença (a Espanha registra a retomada da contaminação pela Covid-19). Um grupo defende a reabertura das escolas, outro sugere cautela. Mais parece um falatório na Torre de Babel.

Na economia, o conflito nasce no próprio governo. Uma ala defende o programa Renda Brasil e as ações sociais, mas o desacordo é oceânico entre a equipe econômica e os que combatem o teto de gastos. O Orçamento irreal ameaça romper o teto, mas o governo pretende usar R$ 1,2 bilhão fora dele.

O presidente, embalado no apoio popular do Nordeste, depois do mau desempenho em 2018, queria continuar com um auxílio emergencial de R$ 600, mas ficou nos R$ 300. Se a economia não embalar em 2021, como as margens protegidas reagirão à diminuição dos recursos?

A reforma administrativa, agora no Parlamento, abrangerá apenas os futuros servidores. Ela propõe corte de vantagens, como licença-prêmio e redução do salário inicial, entre outros.

A área política, de olho nas eleições deste ano e na de 2022, tende a aprovar uma reforma mais suave. A base governista conta na Câmara com o PP e outras agremiações, mas há dúvida sobre a lealdade parlamentar.

No ambientalismo, uma luta aberta. De um lado, o ministro Ricardo Salles e apoiadores que acendem o fogo na floresta amazônica. No outro, a comunidade salvacionista, apoiada por governos estrangeiros. No meio, o vice-presidente Hamilton Mourão tenta equilibrar o jogo.

A guerra da expressão deixa atônitos seus próprios protagonistas. Por falta de uma orientação segura, batem boca pela imprensa ou em lives, nova mania nacional. Resta dizer que o próprio mandatário-mor tem sido responsável por parcela dos litígios.

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