A Cultura do Saber – Por Marcos Fabrício Lopes da Silva – #temporadadetextos

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Estamos todos no mesmo barco, pobres e ricos, tentando conviver num mundo de profundo mal-estar, situação surpreendente similar à descrita por Aldous Huxley (1894-1963) no prefácio à 2ª. edição de Admirável mundo novo, em 1946: “o futuro imediato deverá parecer-se ao passado imediato, em que as mudanças tecnológicas rápidas, verificadas numa economia de produção em massa e entre uma população predominantemente destituída de posses, sempre tenderam a provocar a confusão econômica e social. Para enfrentar a confusão, o poder tem sido centralizado, e o controle governamental ampliado. É provável que todos os governos do mundo venham a ser quase que completamente totalitários, mesmo antes da utilização da energia nuclear; que o serão durante e depois dessa utilização, parece quase certo”.

Huxley, há mais de setenta anos, já apontava para o risco do aumento do controle governamental, o perigo do totalitarismo, em consequência, especialmente, do conflito entre uma economia de produção em massa e a maioria da população sem muitas posses; a velha desigualdade social provocando o choque. O notável avanço da ciência e da tecnologia não foi nem está sendo seguido de avanços no plano existencial e ético. Em plano mais amplo, assiste-se hoje um verdadeiro culto ao mercado, onde a capacidade de competir sobressai como virtude e competência, ocultando e deixando à margem necessidades humanas básicas, universais e essenciais à construção da dignidade. Mais do que isso. O culto ao mercado que está se tornando uma condição de sobrevivência, de pessoas e países, influencia de forma crescente a educação, começando mesmo a determinar-lhe os fins e, por consequência, subtraindo ao indivíduo uma das mais caras conquistas do homem ocidental que é a liberdade de ser e de fazer opções e escolhas.

Um governo patriótico, que entenda os rumos da era do conhecimento, deve ampliar recursos para o ensino superior e, ao mesmo tempo, enfrentar a tragédia da educação de base. Precisamos sair da calamidade do analfabetismo e dar um salto para colocar o Brasil entre os países com melhor educação no mundo. O ensino superior é um instrumento de ascensão pessoal para quem se forma, mas a formação não é apenas para beneficiar o indivíduo, mas servir ao conhecimento e à formação de profissionais que permitam melhorar o país. Infelizmente, nossa curta democracia foi tomada por uma relação nada republicana entre a política e a economia.

Mente-coração, em japonês, é um caractere chinês, lido shin, que significa o espírito, a essência. Acredito em trabalhar simultaneamente o corpo físico – respiração consciente, relaxamento de áreas contraídas, tensionadas – com ideias, pensamentos, filosofias, maneiras de olhar a realidade que podem ser transformadas. Por exemplo, a ótica de uma sociedade de violência, uma sociedade de um contra o outro pode se tornar a de convivência mais colaborativa e cooperativa. O fato é que é preciso fazer com que todos no governo, no atual e nos que se sucederão, a ideia de que a desigualdade é o principal fator que nos mantém no patamar de país subdesenvolvido e está na raiz das principais mazelas sociais que flagelam o Brasil desde sempre.

Segundo estudos da organização não governamental Oxfam Brasil (2018), nosso país vem recuando no quesito desigualdade. Caímos da 10ª para a nona posição como o país mais desigual do planeta. É preciso entender que a desigualdade social é, antes de tudo, um processo que diz respeito às relações dentro da sociedade e que, de certa forma, limita o status de um determinado grupo, restringindo seus direitos à saúde, à educação, à segurança, à casa própria e a outros direitos. Isso sem falar no acesso a serviços de infraestrutura, como água encanada e esgoto. Com isso todo o processo de crescimento econômico fica seriamente comprometido. Na desigualdade está ainda a concentração de renda nas mãos de menos de 10% da população que, seguidamente, assistem à elevação de seus rendimentos e, ao contrário, à retração sistemática de ganhos das classes mais pobres. Com isso, a renda média da população com maiores ganhos chega a ser quase dez vezes maior que a recebida pelas classes na base da pirâmide.

O Brasil não mudará enquanto não entendermos que o êxito por paliativos não reduz o problema. Enquanto não virmos que os problemas, universidades ou cadeias, têm origem no mesmo lugar: a educação de base. A chance de uma boa universidade está em garantir educação de base com qualidade para todos, filhos de pobres e ricos no mesmo sistema escolar. A chance para o país ter baixa criminalidade está na garantia de escola de qualidade com oportunidades para todos. Há 40 anos, Darcy Ribeiro (1922-1997) dizia que ou fazemos mais boas escolas ou vamos continuar fazendo mais prisões ruins.

A justiça social se concretizará efetivamente no Brasil com a libertação pelo saber. Conforme ressalta a jornalista Adriana Bernardes, em artigo publicado no Correio Braziliense, de 16/05/2019: “Dá para contar nos dedos o número de nações que travam uma cruzada contra o avanço da educação e da ciência — geralmente, regimes totalitários ou teocráticos. Não nos esqueçamos do que realmente importa, acima de partidos ou ideologias. Um país mais justo, com oportunidade para todos, com pleno emprego, vagas para crianças nas creches públicas, escola de qualidade para crianças, jovens e adultos. O que precisamos como nação é de unidades de ensino que valorizem o livre pensamento; que estejam conectadas com a realidade socioeconômica do público atendido; que despertem no aluno o sentimento de pertencimento e respeito por aquele ambiente; que conduza o estudante a enxergar no ambiente escolar um mundo de possibilidades. Que o futuro do país seja de luz. Que a fase das trevas permaneça nos livros de histórias para que não nos esqueçamos jamais que a libertação se dá pelo saber”.

Marcos Fabrício Lopes da Silva

Marcos Fabrício Lopes da Silva

Professor universitário. Jornalista, formado pelo UniCEUB. Poeta. Doutor e mestre em Estudos Literários pela UFMG.