A Cultura de Massa e o Enfraquecimento Coletivo do Sujeito – Por Marlon Nunes – #temporadadetextos

“Se nos imaginários a técnica hora é o Deus e hora o Demônio, assim ela ultrapassa esses dois imaginários e torna-se, nessa anulação, maior, tanto que um quanto que outro. ”

Marlon Nunes

PRIMEIRA PARTE

 

 

[…] a propaganda funciona como uma espécie de satisfação de desejos. Este é um de seus mais importantes padrões. As pessoas são deixadas à vontade, como se estivessem tomando posse de um narcótico.

                                                  

Theodor Adorno

Marlon Nunes

O termo narcisismo surge da descrição clínica de Näcke, para indicar comportamentos os quais o indivíduo trata o seu corpo como objeto sexual. Pode-se considerar o desejo pelo próprio corpo, no que Freud denominou de narcisismo primário, algo natural, visto como forma de desenvolvimento regular  do indivíduo. Ao contrário do narcisismo secundário que retira a libido dos objetos externos a dirigindo ao Eu. Deve haver algo que se acrescenta ao autoerotismo, uma nova ação psíquica, para que se forme o narcisismo. E sendo a semiformação o espírito capturado pelo caráter de fetiche da mercadoria, entendemos que esse redirecionamento justifica a leitura adorniana de narcisismo coletivo relativamente aos reflexos da indústria cultural resultando na semiformação do sujeito.

A subjetividade, diante do constante endurecimento do mundo burocratizado, que tudo pretende controlar, encontra de forma substitutiva a identificação com o todo social. Da percepção dessa suplementaridade surge o interesse de aprofundar o entendimento sobre a intercalação entre o incessante desenvolvimento das novas técnicas de produção/consumo e sua influência na formação/enformação da subjetividade.

É preciso realizar (ainda mais) a crítica da enformação histórica equacionada no desenvolvimento da racionalização ocidental evidenciando o conceito de indústria cultural. A Revolução Copernicana na Filosofia, realizada pelo movimento iluminista possibilitaria a independência do sujeito, mas ao contrário, resultou no engodo da reversibilidade deste, também em objeto.

Os consumidores da cultura de massa são, supostamente tratados como sujeitos, principalmente por acharem que são livres em suas escolhas, entretanto, tal mecanismo, em suas inúmeras facetas, é mais um método de assujeitamento na glorificação da imagem que o indivíduo faz de si mesmo, haja vista, que toda a cultura de massa é narcísica.

A partir dessa perspectiva temos como hipótese o processo dialético de enfraquecimento do sujeito frente ao sistema formado pela indústria cultural, pois, ela atinge o todo e a parte. Assim, analogamente ao personagem grego, Narciso, o indivíduo contemporâneo, neuroticamente, necessita de expressões que ressoem ele mesmo. Narcísico fosse um dos limites de sua suscetibilidade à influência. O narcisismo não seria uma perversão, mas o complemento libidinal do egoísmo do instinto de autoconservação. Apontamos assim a dificuldade do indivíduo de interpor-se a criar forças que não o deixem seduzir, totalmente, em sua falta formativa, pelas mercadorias da indústria cultural. Dessa maneira ele, o indivíduo, caminha num ritmo constante de suposta emancipação, mas, que, ritualisticamente, apenas é: consumo.

A vida no capitalismo tardio é um contínuo rito de iniciação. Na fraqueza deles, a sociedade reconhece sua própria força e lhes confere uma parte dela. A liquidação do trágico confirma a eliminação do indivíduo. É assim que se elimina o trágico. Dissolveu-se neste nada que é a falsa identidade da sociedade e do sujeito. A própria capacidade de encontrar refúgios e subterfúgios, de sobreviver à própria ruína, com que o trágico é superado, é uma capacidade própria da nova geração. A liquidação do trágico confirma a eliminação do indivíduo. O que domina é a pseudo-individualidade. As particularidades do eu são mercadorias monopolizadas e socialmente condicionadas, que se fazem passar por algo de natural. Em sua aparente liberdade, ele era o produto da sua aparelhagem econômica.

O processo de desenvolvimento do esclarecimento ocidental culminaria nos cálculos, na eficácia da produção, difusão e controle exercido pela técnica sobre outras instâncias do pensamento-linguagem. O aprofundamento do processo técnico tem consequentemente coisificado as subjetividades e por isso estaríamos desprovidos da pluralidade de pensamento devido ao fato de a própria razão ter-se tornado mais um dos subsídios do indumentário instrumental.

 

O paradoxo da rotina travestida de natureza evidencia que a indústria cultural consolidou a barbárie estética, ou seja, a anulação do processo de tensão existente no processo de criação, pois, criar não se resumiria na harmonia, e sim, no desacordo do indivíduo com a sociedade. Ao extinguir a tensão na naturalização do produto cultural de massa como verdade, o consumidor tende a diminuir a percepção dos seus sentidos, anulando-os narcisicamente. A semiformação não se confina meramente ao espírito, adultera também a vida sensorial. É na saturação e na apatia contínuas, por exemplo no deixar de escutar músicas mais rebuscadas em detrimento de improvisações que o indivíduo encontra o paradoxo da subjetividade. O estilo da indústria cultural e suas cópias foi democratizado-globalizado numa psicotécnica da imitação e do não deixar pensar. Ele não pode nos dar descanso visto que é preciso estarmos conectados às suas publicidades.


Marlon Nunes é professor mestre em Estudos de Linguagens, escritor e psicanalista em Contagem-MG. Possui dois livros publicados: “A solidariedade vai até onde vai o interesse” e “O corpo hiper-real em Crash e a festa tecnológica: sedução, simulação e fragmentação”.


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